escrevo, logo existo

Já fui tantas coisas que hoje, já nem sei mais quem sou.

Sou a combinação das sílabas que formam as palavras de tudo que escrevo, que revelam as minhas lacunas e os resíduos de vidros espalhados pelo chão. Palavas que descrevem os rastos dos caminhos que percorri, me perdi e me (re)encontrei. Testemunham os pedaços das histórias de amor, de ódio, de amigos e de opositores que conquistei.

Palavras.

Tentam aliviar a amargura das histórias, incompletas, desfeitas, perdidas pelo caminho. Foi o que sobrou. É tudo o que tenho, logo é tudo que sou.

Escrevo, logo existe tudo o que pretendia ser, tudo o que fui, tudo o que deixei de ser.

Alguns bebem para afogar as mágoas. Eu tento escrevê-las poeticamente e embriago-me descaradamente com as recordações que elas carregam, com rodelas de limão e lágrimas salgadas. Penso que a minha morte há de ser diagnóstica pela mesma causa de um bêbado: problemas no fígado; causa: bebeu/sentiu demais ao longo da sua vida. Ou algo assim, sei lá.

Escrevo, porque sinto. Sinto muito todos os meus absurdos silenciados pela coerência desse mundo. Por vezes, me estranho no reflexo do espelho. Às vezes, as palavras o destroem e outras vezes, elas escapam pelos olhos. É simplesmente, desconfortável. Uma sensação de sapato apertado no pé, de uma roupa que não lhe caiu muito bem. Contudo, é o que deve ser usado. Ah se eu te pegasse pelo pescoço, querida coerência, te esfolaria, com as minhas próprias mãos!

Tem dias que não sinto nada. Há dias que nem as palavras estão aqui para justificar o “nada”. E o nada se torna tudo e é assustador. Por já o conhecer de outras vindas, eu me sento no chão. Deixo o silêncio escrever o que quer que seja nas linhas imaginárias do céu azul dos dias quentes. E mesmo no silêncio profundo, muito é escrito. Ainda que as palavras, nem ao menos, sejam vistas.

Mesmo assim eu escrevo. Insisto. Mesmo quando nas palavras não há sentido. Talvez um dia elas tenham sentido, espero!

Escrevo e escrevo de novo e escrevo mais um pouco e só assim, brevemente eu existo.

Por: Francielle Santos

(Foto: Reprodução / Julie)

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