às vezes, só o amor não basta

Neste exato instante eu sinto um vazio imenso, quase um luto.
Falamos tanto da sementinha de feijão (o nosso amor), no potinho na janela, no algodão molhado e agora não sei dizer se era uma sementinha podre, se o algodão secou e não percebemos a tempo de cuidá-la para não secar ou se a plantamos na terra cedo demais ou se porventura a terra não era boa ou não estava pronta para receber aquele tão jovem brotinho. Seja qual for a prova em questão, tudo entre nós se tornou difícil, árido, espinhoso, duro… E eu me pergunto: Será que não foi amor demais em pouco tempo ou amor de menos em tanto tempo?


Agora enumerar erros, falhas, vacilos, brigas e culpados é inútil. Pois fatos são fatos. Acontecimentos no tempo passado é passado, logo imutáveis. Dizer quem errou mais ou de menos, não me faz sentir menos culpa, dor e arrependimento. Falar de amor, por mais absurdo que pareça a ideia de “o amor é insuficiente”, neste momento o amor é insuficiente – não basta. Sobre perdão e desculpas: verdadeiras e sinceras até demais (se dizer que demais for justo no contexto), não reparam os danos causados e não saram ou cicatrizam as feridas em mim, nem nele tão pra já. E deveras, não há palavras adequadas o bastante para justificar o nosso fim. Não há discurso acertado da defesa para convencer o júri. Não há veredito que condene justamente o acaso do nosso amor.


Existem coisas que são reparáveis. Como uma casa que desaba. Seja por qual a razão ou quem foi o responsável, a única coisa à fazer é demolir o que sobrou (se sobrou alguma coisa), remover os entulhos, independente de quantas caçambas sejam necessárias, analisar o terreno vazio e avaliar se ainda o quer ou se talvez seja melhor passá-lo adiante. E desenhar um novo projeto, reconstruir uma casa nova, decorar sozinho ou acompanhado do seu amor restaurado ou de um novo amor e só então, voltar a morar.


Uma parte de mim, o que sobrou de toda essa história ao menos está leve ou em paz. Pois fui até o meu último minuto dessa vez. Deixei o meu ego amarrado no pé da minha cama e o meu orgulho trancado no meu quarto. Sai com a cara e a pouca, pouquíssima coragem.


Quando tranquei o apartamento naquela manhã de uma quinta feira de uma semana qualquer, depois de me revirar várias vezes na cama e levantar trinta minutos depois que ele saiu para o trabalho. Tomar banho. Arrumar a cama. Escrever um breve bilhete carinhoso transbordando de gratidão em uma folha de papel toalha, dobrá-lo, colocá-lo sob a pequena escrivaninha do quarto. Sentir uma leve sensação de estar em casa. Checar se tudo estava onde deveria estar e se eu não estava a esquecer nada. Apagar as luzes e sair. Entrar no elevador com o coração apertado, a segurar fortemente aquela chave, desci do 12º andar até o térreo em pleno silêncio, dei um bom dia com um sorriso amarelado ao porteiro, quase dizendo: “adeus” ao invés de “obrigada”. Caminhei devagar, quase parando, virei a segunda a direita, atravessei e e forcei os passos… mandei um torpedo avisando que estava chegando a frente da academia e logo o vi pelo vidro, ele a caminhar na mesma direção do lado de dentro. Ele atravessou a catraca, entreguei-lhe a sua chave, agradeci por ter me recebido e todo o resto (que não conseguia descrever), desviei o olhar.

Ele ainda aparentemente muito confuso disse o que era preciso, se desculpou pelo o que julgou necessário, orientou sobre a volta para casa, abraçou-me e eu virei. A princípio dei dois ou três passos firmes, com os olhos turvos fui desacelerando até que parei passos á frente. Respirei uma, duas ou três vezes profundamente na vã tentativa de retomar o fôlego, consciência e coragem para aceitar…

Aceitar que fizemos tudo o que podíamos, o nosso melhor, a nossa maneira, no nosso tempo e limite. Aceitar que por mais aparente que fosse o nosso “perfeito nosso”, o nosso “pra sempre juntos”, o nosso para sempre não era para sempre. Aceitar que erramos um com o outro e a pesar das desculpas e tentativas os danos dos nossos erros foram irreparáveis. Aceitar que por mais sins que tenhamos ou tivemos para ficarmos juntos, eles foram vencidos pelas razões que disseram que não. Aceitar que às vezes só o amor não basta. Aceitar que as promessas são sufocadas pelos medos. Aceitar que as juras de amor são temporárias diante das circunstâncias diárias. Aceitar que não poucas vezes, a vontade de estar junto é desperdiçada por ineficácia. Aceitar que às vezes, o fim seja só outra maneira de amar.

[09.02.2018]

Por: Francielle Santos

(Foto: Reprodução / Pinterest)

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