não existo, até que escrevo

Olho pelo janela e o mundo lá fora parece ter se tornado desconhecido, estranho e vazio. A cidade dentro de mim, parece fantasma. Não me reconheço. Não lembro de coisas que outrora pareciam importantes, essências. Não entendo como não posso estar lá. Não conformo-me como ainda estou aqui. Sinto como se eu tivesse desaparecido, mesmo ainda sentindo o meu coração pulsar no peito. Percebi que criei o hábito de checar meus batimentos, pois por vezes, tenho paranoias de que o meu coração tenha parado de bater, mas ele continua batendo, mesmo que às vezes, bem fraco. Quando acordo, reviro-me infinitas vezes na cama, tentando encontrar forças e razões exitantes para levantar. Parece ridículo eu sei. Quem em sã consciência, precisa de razões para levantar? Mas eu preciso, eu tento encontrá-las, enumerá-las em ordem de prioridades na minha cabeça, ainda de olhos fechados, procurando força para começar o dia. Penso que no fundo todos precisão, todos as tem, mesmo que tais razões estejam na inconsciência, no modo automático do dia a dia. Tem dias que eu me pergunto, aonde foi parar o meu modo automático de viver os dias (era tão mais fácil!). Contudo, em dias, como hoje, eu custo um tanto de horas que passam depressa demais, para levantar. E que piada miserável está, as horas tem os mesmos minutos e a mesma quantidade de segundos das horas da madrugada, que são para as minhas noites uma eternidade, mas quando o sol chega, eu juro que não sei o que acontece, elas correm depressa, como uma onça atrás de sua presa. Pergunto-me, como posso ter desaparecido até para as minhas prioridades. Mas desapareci de mim. Desapareci com vida. E que morte cruel, é quando você desaparece em vida. Quando a energia que gera luz desaparece da lâmpada. Ainda sou uma lâmpada, mas agora, sem energia, sou uma velharia inútil. Desapareci das pessoas. Ainda que eu me esforce um pouco, já não sou mais vista e você não existe, se ninguém te vê. Não existo, até que escrevo. Escrevo para existir. Olho pela janela fria do meu celular e encontro o mundo renascendo, do jeito que agora dá. Tudo parece está igual, mas no fundo sei que nada voltará a ser como era antes. Sinto como se eu tivesse ficado no mundo de antes. Ou em um mundo, muito antes do de antes. Uma sensação esquisita de que não estava no tempo certo, me afligia e hoje, parece um fato. Não existo nesse mundo virtual novo. Pergunto-me se um dia existirei e divago nas possibilidades da minha futura existência, muitas vezes, engenhosa e audaciosa, e outras, apenas, um cavalgar sossegado em um vinhedo ao norte da Itália. Enfim, levanto. O sol já percorreu metade do seu caminho diário. Preparo um café quente. Olho pelo janela e o mundo lá fora parece ter se tornado desconhecido, estranho e vazio.

Por Francielle Santos

(Foto: Reprodução / Camille Styles)

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