ainda ontem

Ainda ontem, te chamei de amor no meio da balbúrdia do meu dia. Tem palavras que ecoam de dentro sem querer. Te procurei no meio da multidão que atravessei. Te procurei na minha lista de contato para ligar no meio do dia mesmo, só para ouvir a sua voz. Digitei uma mensagem que dizia tanto com apenas três palavras e me perguntei, como somente três palavras poderiam dizer tanto assim? Mas no fim, te deixei ir mais uma vez . E ignorei tudo que em mim tentava falar sobre você.

Ainda ontem, senti um aperto no peito quando cheguei em casa e não encontrei aquela sua bagunça irritante. E é uma droga sentir falta até dela. Fiquei parada na porta inerte por uns breves instantes, tentando te encontrar na minha chata arrumação. E acredite em mim, ainda gosto da minha ordem, mas percebi que ela só faz sentido mesmo, quando tem a sua desordem para acompanhar.

Ainda ontem, conversei com você sentado na bancada da cozinha, enquanto eu preparava aquele risoto de limão siciliano que a gente adora. Te contei dos estresses do trabalho, das cobranças do meu chef, dos relatórios que deram tanta dor de cabeça. Do quanto eu quis sair andando porta a fora do trabalho a cada uma hora, mas fui ficando. Fiz tudo o que tinha que fazer e mais um pouco e quando terminei, me senti grata por ter me esforçado para entregar o meu melhor mais um dia. Você estava aqui. Me ouviu atentamente como sempre fez, porém se manteve em silêncio e você não faz ideia do quão ensurdecedor é o silêncio dessa casa sem a sua opinião racional sobre as coisas cotidianas da vida, sem as suas risadas das minhas palavras tolas que deixo escapar no meio do discurso. Sem a sua parte da conversa falando do seu dia também.

Ainda ontem, te acordei no meio da noite fria para me aquecer na temperatura quente do teu corpo. E foi lastimável, sentir o frio do seu espaço vazio naquela que foi nossa cama. Eu tenho tentado. Juro que tenho tentado dar um jeito de ocupar esse espaço enorme que parece ter agora por aqui. É tão melancólico e irônico perceber que reclamávamos do tamanho da nossa cama, do nosso quarto, do nosso apartamento e eu ainda fico impressionada como agora tudo parece enorme sem você.

Eu já troquei os lençóis com o teu cheiro, mas ainda sinto teu perfume pelo ar desse lugar. Comprei aqueles travesseiros gigantes, mas não é nada parecido com o conforto do seu peito que me abrigava, impressionantemente, tão bem.

Ainda ontem, eu perdi o sono (de novo). E como você pode imaginar, passei o restante da madrugada sentada na minha velha poltrona, com uma xícara daquele chá de frutas vermelhas que você sempre trazia das suas viagens. Tive a estúpida impressão de que aquela solidão era exatamente isso, outra de suas viagens que me tiravam o sono e logo você entraria com a sua mala, uma flor de girassol que comprou no aeroporto para se desculpar outra vez pelo atraso para jantar. Eu sairia correndo, pularia no seu colo, te abraçaria como nunca, na porta mesmo e dane-se o que os vizinhos poderiam pensar.

Ainda ontem, sussurrei que te amo para as paredes e deixei a saudade rolar pelos olhos para quem sabe assim, continuar a vida, mesmo que sem você como eu te prometi que faria. Em pensar que fora uma conversa racional e calma, entre dois adultos à mesa que se conheciam tão bem há tantos anos. Concordamos juntos que seria melhor desse jeito. O plano até pareceu fazer sentido, o problema foi depois entender, que a vida é miseravelmente amarga, fria, barulhenta e pouco selvagem sem você.

Por: Francielle Santos

(Foto: Reprodução / Jenny Boyer)

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