saudade de casa

Eu sinto saudade tudo. Da percepção real (e já não mais imaginária) da vida feliz que eu tanto esperava. De acordar na minha cama e não ser mais a cama que eu perdia o dia de domingo, sonhando com a vida. Porém lá era cama que eu levantava cedinho aos sábados e aos domingos para a vida nas manhãs quentes da cidade carioca. Tenho saudade do silêncio do pensionato nos fins de semana sem as crianças. Do porteiro que sempre sai da garita para abrir o portão para eu passar.

Saudade dos sábados. Saudade de caminhar pela Rua Voluntários da Pátria e tomar um cappuccino com canela no Starbucks. Saudade de cruzar a rua e mais a frente pegar uma bicicleta Itaú e pedalar pelas ruas. De parar nos semáforos, entre os carros, atravessar o túnel do Shopping Rio Sul e ver o mar um pouco mais a frente. Saudade de pedalar na ciclovia na orla de Copacabana, Ipanema, descer para a Lagoa. Saudade de parar no pier, comprar uma água de coco e descansar apoiada na bicicleta e imaginar me envelhecendo, exatamente daquele jeito: sentada observando o vento desenhar nas águas as ondulações, ver os patos, sentir o sol aquecer o meu rosto.

Saudades dos domingos. Saudade de ir torrar na areia da Praia Vermelha. Do senhor que sempre me oferecia um guarda-sol e uma cadeira surrada. De estender a minha velha canga e sentar no canto, perto das pedras, com o meu livro de crônicas do autor Pedro Chagas. De perceber as pessoas a minha volta chegando e ocupando cada milimetro da areia quente. Casais. Famílias grandes. Famílias pequenas. Rodas de amigos. Pessoas sozinhas feito eu. Saudade de sentir a brisa do mar. De olhar a força das ondas e me imaginar mergulhando todas elas. Saudade da água fria. Da força do oceano tentando me puxar para dentro. Saudade da calmaria. Das possibilidades de paz ao boiar entre um remanso e outro do mar (a saudade do mar no meu peito é maior do que ele mesmo).

Saudade da chegada da tarde. Da trilha até o Pão de Açúcar. Se você quer saber a parte boa de ser moradora de uma cidade turística assim, saiba que é conhecer os segredos, as vias escondidas, o jeito mais simples de turistar. É ter a chance de ir no mesmo lugar sempre, como se fosse rotina, porém sempre com a sensação de uma primeira vez e a cada dia perceber algo novo. E que incrível foi descobrir a trilha, as varandas escondidas entre o emaranhado de árvores no meio dela. Cada degrau em falso e cada pisada certa subindo, subindo, subindo (900 metros) até chegar no meu café, que se tornou o meu favorito. Não por ser o melhor café que já tomei, mas por ser privilegiado por aquela vista.

De um lado a vista da praia de Botafogo e o Cristo Redentor de fundo (saudade de ver todos os dias o Cristo Redentor do pátio de casa). Do outro, a pequena praia da urca, a mureta ficando cheia de juventude. Contudo, o melhor da vista se dá pelo por do Sol. Um café nunca foi mais saboroso, se não os tomados na presença daqueles por do sol. Saudade dos por do sol. Saudade de descer a trilha e pensar o quão agraciada eu era por morar a poucos metros dali. Saudade de pegar outra bike e pedalar pela urca, até em casa, sentido o vendo mais fresco por causa da chegada da noite e me maravilhar com a vida que eu já tinha. Pequena. Imperfeita. Simples. Cheia de perrengues, mas era minha. Saudade do quarto que eu chamava de lar. Saudade da chuveirada fria, removendo a areia, o suor, aquietando o calor da pele. Saudade do café forte feito no fogão da cozinha comunitária. Saudade de casa. Todo dia. Todo manhã. Toda chegada da madrugada. Eu choro de saudade de casa.

Por: Francielle Santos

(Foto: Arquivo Pessoal)

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