no café

Todas as terças-feiras, às quinze horas eu dava um jeito de escapar daquele escritório. Eu que amava tanto o meu trabalho (e ainda acho que amo), tento escapar da estranheza das pessoas que me cercam por lá. Não foi de repente que as coisas ficaram ligeiramente estranhas e desconfortáveis. Foi gradativo, entende? De vacilo em vacilo, de olhar em olhar, de palavra em palavra não dita e as que disseram demais.

O que era um sonho estava se tornando a cada dia um pesadelo. Para quem ia cantarolando as musicas da velha guarda nas manhas, agora eu buscava sempre uma desculpa para sair, para escapar, ainda que por só 15 minutos para um café. A vida parecia querer dar-me outras daquelas rasteiras, e o tombo dessa vez seria ainda maior que os outros. Eu sentia como se os dias estivessem contados.

Até o dia que os meus olhos distraídos o notaram, sentados duas mesas a frente da cafeteria que eu sempre frequentava. Todos os dias, no mesmo horário, por pura coincidência do intervalo em comum que tínhamos, eu passei a tomar notas sobre ele mentalmente.

Ele que sempre pede um expresso e uma torta de bananas da vitrine de doces. Sempre muito concentrado no seu celular. Muito bem vestido com camisas de algodão que acentuam cada músculo (tenho certeza que ele deve ir muito a academia). Algumas vezes, ele percorre os olhos pelo lugar e foi em uma dessas que eu notei os seus olhos cor de mel. A barba perfeita. O meio riso quando a moça lhe serve o seu pedido. O jeito como parece sempre tão preocupado.

“Oi.. desculpa mas preciso comentar que hoje você está tão bonito com essa calça de sarja caqui que já conheço de outras tardes e essa camisa azul claro que realça a cor da sua pele branca levemente corada pelo sol forte desta cidade carioca.” E sem perceber, mas também propositalmente, eu mexo no meu cabelo. “Faz uns dias que passei a retocar o meu batom claro e o rímel toda vez que venho ao café. Faz um tempo que repito os mesmos passos, que sento na mesma mesa e finjo mexer no celular também, com uma tola tentativa de disfarçar que na verdade estou te observando, gravando calmamente os seus traços, a forma como franze a testa quando vê algo esquisito na tela do seu celular (suponho) ou como faz ruguinhas nos cantos dos olhos quando sorri por algo engraçado (imagino)”, penso em dizer para ele. Mas toda vez, me falta a coragem de sinalizar que eu estou ali, reparando, gravando cada movimento dele. Faz um tempo que eu penso em sentar mais distante.

Houve vezes inclusive, que ele não deve ter reparado, mas eu nem vim aqui, decidi deixar pra lá essa ideia de ficar olhando para ele e procurei por outros cafés. E encontrei cafés melhores, provei quitutes que nem sabia que existia e observei outras pessoas diferentes e aparentemente interessantes, porém de algum modo esquisito sempre faltava alguma coisa. Talvez fosse a temperatura ambiente ou o açúcar mascavo ou um café com o sabor mais forte, mas no fim sentia falta dele, sei lá, um tipo de saudade da presença, quem sabe.

É estranho eu sei. Tão pouco sei de você e ao mesmo tempo parece que te conheço”, falo baixinho pra ele mentalmente. Penso que o mundo está mesmo ficando chato ao mesmo tempo que está cada vez mais excêntrico, as pessoas estão tão ocupadas com seu mundo particular na telinha do celular que não se notam mais. Não se percebem. Ou só não fazem mais questão. “E eu continuo fazendo tanta questão de saber mais de você, de te conhecer e dividir todo o tempo que for tempo para um café ou mais com a tua presença de verdade, com o teu olhar me observando e tomando notas sobre mim… “, escrevo no guardanapo, mas não entrego é claro.

Como em todos os dias, eu o observo pagar a conta, levantar e sair.

Tem gente que salva a gente sem precisar fazer nada, basta existir, entende?“, comento com a moça do caixa que não entende nada ou entende, não sei. “Ou basta a gente imaginar coisas com ela“, considero com um sorriso bobo na porta. E poxa, eu imagino infinitas possibilidades com ele, com o homem que se senta duas mesas a frente da minha, no café da esquina.

Por: Francielle Santos

(Foto: Reprodução / Trendencias)

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