todas as quartas-feiras

Quarta-feira, mais um rompante de saudade no meio da semana. Nada surpreendente. Nada convencional. Só mais uma escapada da rotina tediosa dele. O que ele queria? Oras, o de sempre! Como o garçom do bar que sabe exatamente qual a bebida, quantas pedras de gelo, quantas doses daquele cliente fiel de todas sextas-feiras, que chega pontualmente às 19h e senta no canto da bancada, ela já o conhecia assim, minuciosamente bem.

Todas quartas, ele ligava por volta das 15h, entre uma reunião e outra e uma fugida para o cafezinho na copa do escritório. Ligava como se fosse uma emergência de vida ou morte e precisasse desesperadamente que ela o acudisse. Dizia aquelas palavras de quem parecia completamente apaixonado ou faminto por ela. Fazia de conta que estava muito interessado no dia dela, com perguntas breves demais, para quem queria se fazer entender como o homem mais preocupado na terra (vale a intenção, é o que dizem). Dizia que havia pensado nela a semana toda e que precisava muito dela para ficar bem depois daquele dia infernal (todas as quartas, eram impressionantemente infernais, que curioso isso, ela considerava do outro lado da linha). Antes de desligar, ainda dizia: “Não se atrase. Eu não vou poder ficar muito. Você entende, não é?” e desligava, como se tivesse encomendado pizza, na pizzaria da esquina.

No começo, ela não tinha se dado conta de muita coisa. Pudera, não é? Quem que quando se apaixona pelos olhos, pela boca, pelos braços, pela voz, pelo toque, fica prestando atenção nas outras coisas? É óbvio que com ela não havia sido diferente. Quando se encontraram no elevador da empresa, uma certa vez. Tudo o que ela viu, foi um homem de 1,80, loiro, rosto quadrado, barbas tão bem feita (que parecia uma obra de arte), os olhos verdes que parecia um lago escondido entre rochas, o terno azul marinho muito bem alinhado (de certo, era de alfaiate feito sob medida) e um ar levemente arrogante, como todos os outros homens daquele prédio que ela tinha repulsa só de olhar (exceto repulsa por este). Naquela tarde, por mais “deus grego” que ele parecesse ser, e talvez fosse, tudo o que fez foi pedir licença para sair do elevador no andar seguinte. Odiava o ar daquele lugar. Odiava estar naquele prédio. Não conseguia entender, porque as pessoas no banco tinham que ser tão presunçosas, modestas e vaidosas daquele jeito. Nem mesmo conseguia entender como tinha chegado lá, mas precisava do salário da droga daquele emprego e já que estava ali, tinha que sobreviver aos leões, se não seria devorada por eles.

Os dias depois pareceram como mera coincidência ou ela passará a prestar mais atenção. Pois a rotina tedioso continuava a mesma: juntar os relatórios, pegar os envelopes com as secretarias dos diretores e descer para colher assinaturas no 4º andar. Contudo, agora tinha ele no mesmo horário entrando no elevador para ir, Deus sabe para onde. Depois, o acaso também começou a acontecer na cafeteria, logo após daquela muvuca do horário de almoço que ela odiava e para preservar a sua saúde emocional, almoçava mais tarde que todo mundo e sempre descia para um expresso na cafeteria do térreo. Sentava na mesinha do canto que era agraciada pela sombra de um coqueiro e ele também estava lá tomando cafés sentado duas mesas ao lado. E o destino ou Alá ou universo, como queira chamar, não se dando por satisfeito, também passou programar os horários das manhãs, quando ela notara a presença dele na padaria do outro lado da rua às 07h45, quando chegava correndo e pedia um pão de queijo e um cappuccino para a viagem para começar o dia.

São apenas eventualidades“, pensava ela. Até o dia que ele entrou no elevador puto de raiva. Vermelho como se fosse matar alguém com as próprias mãos. Xingando como se estivesse sozinho. Lasciando a gravata, desabotoando os primeiros botões da camisa branca de algodão e dobrando os punhos para o meio braço de quem não perdia um dia de academia. E ela não pode evitar percorrer com os olhos por aquele tórax inteiro à sua frente e imaginar perversidades sob ele. Ele deve ter escutado os seus pensamentos criminosos, porque quando se deu conta ele a estava fuzilando com os olhos, como se não apenas estivesse ouvindo o que estava pensando, mas também concordando com eles. Ela saindo do transe que estava, corou ao fixar os olhos na boca dele, com os lábios entreabertos. Pediu licença quase que pedindo desculpas. Merda! Ele a tinha notado.

Depois, os encontros do elevador, das tardes pós almoço e manhãs na padaria passaram a ter uma certa intimidade. Se cumprimentavam cordialmente como pessoas que frequentam o mesmo lugar diariamente. Começaram a comentar sobre o trânsito, o tempo, do jogo de quarta, da situação econômica do país, do filme de ação que estreava no cinema … a partilhar a mesa no café e em algumas manhãs até tomar café da manhã juntos na padaria. Ela nem tinha percebido, mas estava chegando até mais cedo para ter tempo. Pequenas frases no dia, vão gerando permissividade para mais. E não demorou muito e chegou o mais. O happy hour na sexta que ela sempre tinha uma desculpa para não ir, agora passava a semana inteira pensando no que vestir. Os convites para assistir o filme ou uma banda na Paulista, ajuda para comprar uma camisa nova para o congresso e “o posso te deixar em casa?

Dali, o inevitável que vinham evitando a meses. Ela o convidou para entrar e quando ele entrou, foi uma implacável explosão. Pegaram fogo na porta do apartamento como estavam. Saíram deixando os rastros com as roupas pelo chão, até que chegaram na cama e nela se consumiram. Não houve hesitação de nenhuma das partes. Não houve dúvidas. Apenas certezas entre duas pessoas que pareciam ter planejado aquele momento há muito tempo. Sem combinar, haviam se preparado e não podiam falhar. E não falharam.

Ele manipulava o corpo dela no dele de todas as formas, com todas as intensidades e forças. A consumia como se não houvesse limites, e entre eles não havia, não tinha como ter. Ela o segurava forte e pedia mais. Mais forte. Mais rápido. Mais fundo. E ele lhe entregava tudo. A provocava mais a cada gemido silencioso no pé do ouvido e os orgasmos dela que lhe encharcava-o inteiro. Transaram sem hora para acabar naquele fim de tarde. Na Banheira. No tapete da sala. No sofá. Como se recompensa todos os olhares, risos bobos entre as conversas cotidianas, beijos no rosto entre os amigos, todas as despedidas fora de hora até aquele instante. Ela pediu comida japonesa, beberam vinho e dormiram. Quando amanheceu, ela estava sozinha na cama, andou pelo pequeno apartamento e não encontrou vestígios dele, fora como se ele nunca estivesse estado lá.

Passado quase uma semana em que as coincidências pareciam ter desaparecido também, ele ligou. Era uma quarta, no meio da tarde. Confessou saudades infinitas. Inventou desculpas bem elaboradas (o que o provava sua habilidade de oratória como advogado excepcional). Pediu para ir vê-la mais tarde, quando também lhe explicaria o sumiço e todo o resto. Ela não disse muito, apenas concordou (como faria também em todas as vezes seguintes que ainda estavam por vir), não tinha muito para dizer, por mais que estivesse engasgada. “Não se atrase. Eu não vou poder ficar muito. Você entende, não é?” ele disse ao telefone, antes de desligar.

Quando ele chegou, fora aquele arrebatamento ainda maior que o da primeira vez. Sempre era um desabafo ou manifestação física entre eles, da qual por mais que ela intentasse muito querer evitar e até se preparasse para isso, falhava miseravelmente. Na primeira semana, depois do sumiço, ela engoliu as desculpas. Observou a urgência na hora de ir embora. O cuidado em se recompor antes de sair e o observou entrar no carro do outro lado da rua pela varanda com uma taça de vinho na mão, dissera que não poderia ficar porque tinha que estar cedo no escritório para uma reunião. Nas semanas seguintes, tinha sempre uma reunião nova ou uma viagem para alguma outra cidade para encontrar um cliente ou tinha esquecido papéis importantes para o dia seguinte.. As razões não variam muito. E algumas vezes, ele ficava o tempo de uma foda rápida bem dada no sofá, gozava e sai tão rápido quanto tinha estado com ela.

As conversas foram perdendo o contexto. As eventualidades no banco foram se tornando tão raras, que pareciam já nem trabalhar no mesmo prédio. A intimidade entre eles parecia fria, apesar da intimidade quente entre os corpos. Toda quarta era um rompante de desejo e tesão, disfarçados pela palavra saudade. E todos os outros dias o vazio do apartamento, o perambular pelos cômodos com o roupão de seda longo, o vinho branco e a incerteza sobre quem tinha se tornado depois dele: a mulher melhor fodida (no sentido delicioso da coisa) ou a mulher mais solitária da cidade inteira.

Todas quartas, ele ligava por volta das 15h, entre uma reunião e outra e uma fugida para o cafezinho na copa do escritório. Ligava como se fosse uma emergência de vida ou morte e precisasse desesperadamente que ela o acudisse. Dizia aquelas palavras de quem parecia completamente apaixonado ou faminto por ela. Fazia de conta que estava muito interessado no dia dela, com perguntas breves demais, para quem queria se fazer entender como o homem mais preocupado na terra (vale a intenção, é o que dizem). Dizia que havia pensado nela a semana toda e que precisava muito dela para ficar bem depois daquele dia infernal (todas as quartas, eram impressionantemente infernais, que curioso isso, ela considerava do outro lado da linha). Antes de desligar, ainda dizia: “Não se atrase. Eu não vou poder ficar muito. Você entende, não é?” e desligava, como se tivesse encomendado pizza, na pizzaria da esquina.

No começo, ela não tinha se dado conta de muita coisa. Pudera, não é? Quem que quando se apaixona pelos olhos, pela boca, pelos braços, pela voz, pelo toque, fica prestando atenção nas outras coisas? É óbvio que com ela não havia sido diferente. Quando se encontraram no elevador da empresa, uma certa vez. Tudo o que ela viu, foi um homem de 1,80, loiro, rosto quadrado, barbas tão bem feita (que parecia uma obra de arte), os olhos verdes que parecia um lago escondido entre rochas, o terno azul marinho muito bem alinhado (de certo, era de alfaiate feito sob medida) e um ar levemente arrogante, como todos os outros homens daquele prédio que ela tinha repulsa só de olhar (exceto repulsa por este). Naquela tarde, por mais “deus grego” que ele parecesse ser, e talvez fosse, tudo o que fez foi pedir licença para sair do elevador no andar seguinte. Odiava o ar daquele lugar. Odiava estar naquele prédio. Não conseguia entender, porque as pessoas no banco tinham que ser tão presunçosas, modestas e vaidosas daquele jeito. Nem mesmo conseguia entender como tinha chegado lá, mas precisava do salário da droga daquele emprego e já que estava ali, tinha que sobreviver aos leões, se não seria devorada por eles.

Os dias depois pareceram como mera coincidência ou ela passará a prestar mais atenção. Pois a rotina tedioso continuava a mesma: juntar os relatórios, pegar os envelopes com as secretarias dos diretores e descer para colher assinaturas no 4º andar. Contudo, agora tinha ele no mesmo horário entrando no elevador para ir, Deus sabe para onde. Depois, o acaso também começou a acontecer na cafeteria, logo após daquela muvuca do horário de almoço que ela odiava e para preservar a sua saúde emocional, almoçava mais tarde que todo mundo e sempre descia para um expresso na cafeteria do térreo. Sentava na mesinha do canto que era agraciada pela sombra de um coqueiro e ele também estava lá tomando cafés sentado duas mesas ao lado. E o destino ou Alá ou universo, como queira chamar, não se dando por satisfeito, também passou programar os horários das manhãs, quando ela notara a presença dele na padaria do outro lado da rua às 07h45, quando chegava correndo e pedia um pão de queijo e um cappuccino para a viagem para começar o dia.

São apenas eventualidades“, pensava ela. Até o dia que ele entrou no elevador puto de raiva. Vermelho como se fosse matar alguém com as próprias mãos. Xingando como se estivesse sozinho. Lasciando a gravata, desabotoando os primeiros botões da camisa branca de algodão e dobrando os punhos para o meio braço de quem não perdia um dia de academia. E ela não pode evitar percorrer com os olhos por aquele tórax inteiro à sua frente e imaginar perversidades sob ele. Ele deve ter escutado os seus pensamentos criminosos, porque quando se deu conta ele a estava fuzilando com os olhos, como se não apenas estivesse ouvindo o que estava pensando, mas também concordando com eles. Ela saindo do transe que estava, corou ao fixar os olhos na boca dele, com os lábios entreabertos. Pediu licença quase que pedindo desculpas. Merda! Ele a tinha notado.

Depois, os encontros do elevador, das tardes pós almoço e manhãs na padaria passaram a ter uma certa intimidade. Se cumprimentavam cordialmente como pessoas que frequentam o mesmo lugar diariamente. Começaram a comentar sobre o trânsito, o tempo, do jogo de quarta, da situação econômica do país, do filme de ação que estreava no cinema … a partilhar a mesa no café e em algumas manhãs até tomar café da manhã juntos na padaria. Ela nem tinha percebido, mas estava chegando até mais cedo para ter tempo. Pequenas frases no dia, vão gerando permissividade para mais. E não demorou muito e chegou o mais. O happy hour na sexta que ela sempre tinha uma desculpa para não ir, agora passava a semana inteira pensando no que vestir. Os convites para assistir o filme ou uma banda na Paulista, ajuda para comprar uma camisa nova para o congresso e “o posso te deixar em casa?

Dali, o inevitável que vinham evitando a meses. Ela o convidou para entrar e quando ele entrou, foi uma implacável explosão. Pegaram fogo na porta do apartamento como estavam. Saíram deixando os rastros com as roupas pelo chão, até que chegaram na cama e nela se consumiram. Não houve hesitação de nenhuma das partes. Não houve dúvidas. Apenas certezas entre duas pessoas que pareciam ter planejado aquele momento há muito tempo. Sem combinar, haviam se preparado e não podiam falhar. E não falharam.

Ele manipulava o corpo dela no dele de todas as formas, com todas as intensidades e forças. A consumia como se não houvesse limites, e entre eles não havia, não tinha como ter. Ela o segurava forte e pedia mais. Mais forte. Mais rápido. Mais fundo. E ele lhe entregava tudo. A provocava mais a cada gemido silencioso no pé do ouvido e os orgasmos dela que lhe encharcava-o inteiro. Transaram sem hora para acabar naquele fim de tarde. Na Banheira. No tapete da sala. No sofá. Como se recompensa todos os olhares, risos bobos entre as conversas cotidianas, beijos no rosto entre os amigos, todas as despedidas fora de hora até aquele instante. Ela pediu comida japonesa, beberam vinho e dormiram. Quando amanheceu, ela estava sozinha na cama, andou pelo pequeno apartamento e não encontrou vestígios dele, fora como se ele nunca estivesse estado lá.

Passado quase uma semana em que as coincidências pareciam ter desaparecido também, ele ligou. Era uma quarta, no meio da tarde. Confessou saudades infinitas. Inventou desculpas bem elaboradas (o que o provava sua habilidade de oratória como advogado excepcional). Pediu para ir vê-la mais tarde, quando também lhe explicaria o sumiço e todo o resto. Ela não disse muito, apenas concordou (como faria também em todas as vezes seguintes que ainda estavam por vir), não tinha muito para dizer, por mais que estivesse engasgada. “Não se atrase. Eu não vou poder ficar muito. Você entende, não é?” ele disse ao telefone, antes de desligar.

Quando ele chegou, fora aquele arrebatamento ainda maior que o da primeira vez. Sempre era uma desabafo ou manifestação física entre eles, da qual por mais que ela intentasse muito querer evitar e até se preparasse para isso, falhava miseravelmente. Na primeira semana, depois do sumiço, ela engoliu as desculpas. Observou a urgência na hora de ir embora. O cuidado em se recompor antes de sair e o observou entrar no carro do outro lado da rua pela varanda com uma taça de vinho na mão, dissera que não poderia ficar porque tinha que estar cedo no escritório para uma reunião. Nas semanas seguintes, tinha sempre uma reunião nova ou uma viagem para alguma outra cidade para encontrar um cliente ou tinha esquecido papéis importantes para o dia seguinte.. As razões não variavam muito. E algumas vezes, ele ficava o tempo de uma foda rápida bem dada no sofá. Gozava e sai tão rápido quanto tinha estado com ela.

As conversas foram perdendo o contexto. As eventualidades no banco foram se tornando tão raras, que pareciam já nem trabalhar no mesmo prédio. A intimidade entre eles parecia fria, apesar da intimidade quente entre os corpos. Toda quarta era um rompante de desejo e tesão, disfarçados pela palavra saudade. E todos os outros dias o vazio do apartamento, o perambular pelos cômodos com o roupão de seda longo, o vinho branco e a incerteza sobre quem tinha se tornado depois dele: a mulher melhor fodida (no sentido delicioso da coisa) ou a mulher mais solitária da cidade inteira.

Por: Francielle Santos

(Foto: Reprodução / Dirty Boots Presets)

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