quarenta semanas depois, 03 de Julho

Tem datas que marcam a vida da gente para sempre e 03 de Julho com certeza é uma das minhas datas. Não doe a lembrança do que foi, e sim o do que não foi depois disso. Principalmente agora que já se passaram 1461 dias depois do meu desembarque, tudo o que me recordo claramente como se fosse ontem, são aprendizados e experiências que vou levar por toda a minha vida. Um capítulo que eu não retiraria por nada do meu livro, mesmo que tenha sido extravagante em todas as faces do cotidiano, das razões que me levaram e principalmente, pelas que me mantiveram à bordo por nove meses. Não foi um mar só de rosas perfumadas com todos os aromas de diferentes culturas e lugares que eu tive a sorte de conhecer. Foi tudo isso com doses extravagantes de muito sacrifício, dor, vontade de pular em alto mar e vê no que dava. Dramático, mas a vida de um tripulante a bordo de um navio de cruzeiros é exatamente isso, dramática, excêntrica e quando nada disso, é também a coisa mais calma do mundo. Uma verdadeira bi(tri)polaridade inegável!

Quarenta semanas em alto mar, o tempo de uma gestação. Só agora eu me dei conta da coerência do tempo que fiquei à bordo. O isolamento seja ele social como estamos vivendo agora por causa da pandemia ou pela nossa própria retirada do cotidiano em algumas fases da vida ou como é na sua primeira vez à bordo de um navio de cruzeiro (isolada de toda à vida que eu conhecia antes), causa efeitos colaterais irreparáveis. Como uma metamorfose que acontece à uma lagarta, uma vez no casulo ou ela morre ou saí de lá transformada. Você nunca mais volta à ser o que foi antes. E tudo o que conhecia perde um pouco do brilho, das certezas, da segurança… é como me sinto até hoje, tentando voltar a viver no antes, como antes ou tentando adequar partes do antes com o depois (esforço que me esgota as forças)… tolice minha, eu sei!

A realidade da vida de cruzeiros era uma tela em branco na minha mente. Eu não sabia o que fazer ao certo, como me comportar, como lidar com toda aquela tsunami de culturas misturadas na convivência com os meus colegas de trabalho e com as pessoas que eu prestava o meu serviço (mais de 70 nacionalidades ao mesmo tempo), eu não sabia como viver os dias maus, que eram muitos. E por vezes, eu não sabia sequer como aproveitar na integra os dias extraordinários que se eternizaram na minha memória. A gente somente sobrevive as experiências mais intensas na primeira vez. Eu sobrevive e ouso dizer que também vivi como nunca havia vivido antes! Quanto mais medo eu tinha, mais desafiada e por consequência encorajada eu me sentia para vencer os obstáculos. Cada vez que um “capo” (supervisor) dizia que eu não daria conta, mais eu fazia e provava o contrário. Por vezes, eu me sentia um touro na arena, louca para vencer os toureiros que duvidavam da minha força. Hoje, ainda me surpreendo com essa força que nunca pensei que teria e que por vezes, me falta nos dias atuais.

Sobre tudo, eu aprendi a me valorizar como mulher como nunca. Cresci em uma realidade tão machista sem ter muita consciência disso e parei no meio de um universo mais machista ainda. Sendo franca, eu não tinha ideia do quanto o machismo estava impregnado na minha realidade de antes, até ser submetida aos extremos à bordo. “É cultura Italiana!” uns diziam, “É o jeitinho espanhol de conseguirem a atenção” outros afirmavam, “é o charme português“, as meninas comentavam no crew bar entre uma cerveja e um desabafo, e eu queria literalmente dar um chute bem dado no meio das pernas de todos aqueles oficiais, gerentes e tripulantes no geral, que se viam no direito de dizer e fazer o que bem queria com uma moça cuja a bandeira na name tag era verde e amarelo (e me entristece lembrar, que era como se fosse sinônimo de mulher fácil atrás de um visto, mas isso não vem ao caso agora). Contudo, é nessas horas em que você é exposta a verdades tão descaradas, que você também descobre suas armas de defesas internas mais fortes. Você ecoa a sua voz mais imponente! Você escolhe entre se submeter ou ser quem acredita e honrar suas as escolhas da melhor forma possível.


No Crew Bar – Dia de Navegação (Foto: Arquivo Pessoal)

Eu escolhia ficar

Não consigo enumera a quantidade de vezes que entrava no elevador e subia ao RH para pedir demissão. Tinha dias (quase todos os dias) que uma voz me dizia: “você não precisa passar por isso!“, eu me sentia tão decidida a vir embora, mas aí quando chegava no 4 º andar e caminhava pelo deck dos botes salva-vidas e ficava presa na vista daquelas águas, enquanto íamos de um porto à outro, uma voz mais forte do que a anterior dizia no meu peito: “você precisa de mais!“. Eu me lembrava de casa, dos meus pais, do meu irmão, dos meus amigos, da igreja, de tudo e a saudade apertava sem dó, mas eu já estava longe demais de tudo e não era só geograficamente e temia o retorno, tanto quanto o desejava.

Todo mundo tem um tempo de maturação, mesmo que no meio do processo, a gente pareça não aguentar mais. E a verdade é que a cada cruzeiro (exatos 7 dias), a vida à bordo se renova. A cada leva de passageiros que desembarcava e uma nova leva que embarcava, eu sentia que podia dar conta de mais uma semana. E impressionantemente, eu dava!

De semana em semana até completar os nove meses (e acredite, se não fosse as regras burocráticas, eu teria ficado mais). Dois navios. Onze países (30 cidades). Um amor. Bons amigos. Despedidas semanais na gangway. Inumeras histórias e encontros aleatórios. Poucas fotos (deveria ter tirado mais). Caminhadas, subidas… e muitas vezes estar perdida entre uma viela e outra na Italia ou em becos na Grécia. Mergulhos em águas quentes e em águas muito frias de doer os ossos. Muitos sabores e cafés acompanhados de croissant de chocolate. Gargalhadas altas à ouvir longe. Lágrimas a transbordar os mares. Convivência intensa com 4 a 5 mil pessoas de diferentes nacionalidades diariamente. Vinho, muito vinho no crew bar. Solidão. Todos os dias sol. A paz do contemplar nascer do Sol inesquecíveis! Som das águas raspando o casco do navio (como chuva grossa que banha a janela). Rastro deixado no mar a perder de vista. Sonhos grandes nascendo no peito a perder de vista.


Nascer do Sol – Mar Mediterrâneo (Foto: Arquivo Pessoal)

Eu nunca mais fui a mesma! E como haveria de ser, não é?

Aí você volta. Você não vê nada mais como antes. Você não se encaixa. Você não sente, como sentia. O que doe hoje, é a sensação do tempo que passa depressa, a percepção de que estou envelhecendo e todos os sonhos da mulher corajosa que me tornei a borda ficando para trás. Não sei como voltar à ser quem era (e na verdade nem quero), mas criar uma nova realidade para a versão atual, se torna a cada dia mais surreal (meu Deus, como isso me atormenta!). E eu que pensei que partir era o meu maior desafio! Quanta ingenuidade essa minha. O maior desafio mesmo é voltar e dar conta de se encaixar ou remodelar a vida que ficou para trás. Sempre penso no tabuleiro de um quebra-cabeças. Um dia eu era de uma forma. Nove meses depois, eu não era mais. Voltei e o tabuleiro continuou o mesmo. O meu espaço vazio exatamente igual, mas eu toda alterada não coube, e doe todo dia tentar me encaixar.

Não há arrependimentos do tempo que me transformou. Mas temo pelo o tempo que já é presente, dos dias do depois das quarenta semanas, que nunca mais pareceram ser suficientes.

Por: Francielle Santos

(Foto: Arquivo Pessoal)

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