amores que vem e vão

Heloísa estava a dias evitando aquelas caixas. Não só as caixas abandonadas no meio do corredor, mas também toda a bagunça que tinha ficado no closet e na estante da sala, agora com espaços vazios. Ela odiava aquela bagunça. Sempre fora tão organizada que começou a pensar que estava entrando na crise da meia idade ou qualquer coisa assim aos 28 anos. Seria possível?

Meu Deus, 28 anos…” e ela tinha planejado tantas coisas para aquele momento. O que faria com todas as fotos de vestido de noiva que tinha colecionado nas pastas de favoritos do Instagram? E todas aquelas idéias de decoração rústica de casamento que separava cuidadosamente nas pastas do Pinterest? Sem falar nas coisas que favoritava no aplicativo da Wish, Amazon, AliExpress e que tinha a intenção de comprar para a decoração nova do seu apartamento, que não seria mais só seu e sim do Sr. & Sra. Dotti.

Logo ela, que sempre fora tão decidida a ser uma mulher independente e por muito tempo não considerou jamais acrescentar o nome do futuro marido no sobrenome, caso um dia pensasse em se casar formalmente. Contudo, nos últimos 4 anos naturalmente se adaptou a ideia e começou a gostar do som do seu primeiro nome acompanhado de Dotti. “Heloísa Dotti” ela falava baixinho para si mesma na frente do espelho algumas manhãs, enquanto se maquiava para ir para o trabalho.

O problema dos jovens é criar expectativas demais sobre algo que é completamente incerto e irreverente, o tal do futuro. Heloísa, tinha lido esse insight uma vez. Entre os 15 aos 18 anos tinha fantasiado a vida de casada como uma adolescente que deseja ir loucamente a Disney. Casar era a Disney para ela. No entanto, veio as primeiras paixões, as primeiras irreverências e consequentemente, as primeiras decepções. Todo mundo passa por isso, não é? A questão não é o que nos acontece e sim, como reagimos e sobrevivemos ao que nos acontece, alguns terapeutas dizem por aí. “Helo, aprendeu a se defender e a se livrar das emboscadas amorosas“, os amigos mais próximos diziam sobre ela. Depois de querer muito viver um amor de uma vida toda em pessoas que estavam mais para paixões de esquina, ela deixou essa coisa de Disney para lá e foi cuidar das áreas que lhe dariam segurança, independência e lhe pouparia madrugadas chorando no travesseiro.

Ela estava dando conta da vida à 1 que construiu. Estava satisfeita. Se estava feliz? Bom parecia estar feliz, apesar dos jantares sozinha nas quartas em casa e da cadeira vazia do outro lado da mesa nos restaurantes que amava. Mas foi em uma terça que Pedro chegou, por volta das 13h26. Audaz. Confiante. Sorridente. Simples. Sentou ao lado dela, na bancada no restaurante de comida mexicana da rua Augusta e sem dar muitas voltas, começou a falar sobre o jeito desconcertado e livre de comer tacos com as mãos, com elas sujas de molho de pimenta. Ela sorrio. A conversa fluiu e de repente, parecia que se conheciam a anos. Trocaram os números de telefone e conversaram por horas naquela noite, durante o resto da semana, do mês e quando Heloisa se deu conta, já estava sentada na mesa para o almoço de domingo na casa da avó dele. Ele na sala conversando com os tios dela na noite de véspera de Natal. Ela no aniversário da sobrinha dele. Ele jogando video game na sala da casa do irmão dela. Coisas dela no apartamento dele. Coisas dele no apartamento dela.

Quatro anos, entre segunda, terça e quarta no apartamento dela e quinta, sexta, sábado no apartamento dele. Domingos revesados entre as famílias. Viagens de fim de semana para o litoral paulista. Viagens longas para os países vizinhos. Coleção de fotos, videos, stories à dois nas redes sociais. Churrascos, rodadas de pizza e vinho com os casais de amigos e primos. Planos. Sem nem perceber, sem querer, Heloísa começou a fazer planos.

Foi em uma noite de quinta que todos os planos lhe escaparam das mãos como se um vento do leste tivesse invadido a casa de repente. De repente? É ela preferia pensar que fora de repente. As coisas estavam frias há umas semanas sim. Algumas coisas tinham ficado por dizer por alguns dias. Mas aí, ele levar todas as coisas dele do apartamento dela… TUDO! Das camisas, as camisetas (que já eram mais dela do que dele), o chinelo, a escova de dente e o creme de barbear, até os filmes e o video o game que tinha comprado para deixar lá no apartamento dela. Era muito exagero! Quase uma pegadinha daquelas que passam na TV para vê a reação de choque ou de fúria do outro. Ela tinha ficado em choque!

Ele não lhe deu muitas explicações. Disse que precisava de um tempo. Um tempo para pensar. “Pensar em que?” ela se torturava por dentro. Ela sentou no sofá da sala e ficou assistindo como quem vê um filme triste no Netflix. Assistiu de camarote ele se retirando do quarto, do banheiro, da cozinha, da sala. Ela que já tinha sido escandalosa no passado, daquelas que questiona, vai pra cima e desafia, naquele momento, ela mal conseguia se mexer, as lágrimas corriam dos olhos silenciosas.

Antes de sair ele lhe pediu desculpas. “Por quê está me pedindo desculpas?” ela quis perguntar, mas não conseguiu pronunciar. Ele lhe deu um beijo na testa, como se fosse ir ali na padaria, a duas quadras, comprar pão. Ela amava o jeito que ele segurava o rosto dela com as mãos e lhe beijava a testa. Ele leu nos lábios dela que se mexeram sem fazer barulho, “eu te amo…” e ele saiu pela porta, da sua vida. Tão leve, repentino e simples como tinha entrado.

Há amores que vem e vão.

Por: Francielle Santos

(Foto: Reprodução / Calder Photography)

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