andava

Nem tinha me dado conta, mas eu tinha criado o hábito de caminhar sem rumo pelas ruas de Botafogo, pelo aterro do Flamengo e às vezes, não sei quantas horas se passava caminhando por aí, eu chegava a orla de Ipanema .. eu apenas andava, andava, andava.

Ficar em casa, no quarto de seis metros quadrados a contar com o banheiro e a copa, me sufocava. Por isso que em dias que eu jurava que estava para morrer, sair para caminhar me fazia ganhar tempo…. tempo de vida. Vida! Era a vida tudo o que eu queria e mesmo aqui, na cidade que me aquecia a pele, a alma, o riso, por vezes, eu sentia que a minha vida estava por um tris.

Tudo ficou ainda mais incerto quando as coisas certas me apertaram tanto que eu explodi. E não explodi bonito, antes fosse. Explodi feio e não me sobrou nada, só a sujeira que eu tive que encarar, carregar para casa e colocar na mala.

Meu Deus, eu nem conseguia crer que estava fazendo as malas de novo. Nada me feria mais do que fazer as malas. Logo eu, que sempre amou fazer as malas para viajar. De repente o meu maior prazer, virou o meu maior objeto de tortura e como me torturei por dias.

Caminhando sem rumo algum pelas praias, a beira mar, sentindo a água fria do mar carioca tentando me acordar daquele pesadelo. Considerei até me jogar do píer do Leme, depois das 00:00, ninguém nem perceberia as minhas lágrimas dizendo adeus aquele desastre. Qualquer saída aquela altura era melhor do que voltar.

Considerei caminhar em linha reta rumo ao horizonte. Começaria ali na ciclovia em frente ao Shopping Rio Sul, atravessaria o túnel novo de Botafogo, teria ainda três semáforos a considerar de pausa, caso o sinal fechasse para pedestre (três pausas que pudessem ser tempo suficiente para eu mudar de ideia), será que daria tempo? Não tinha muita certeza, mas provavelmente não!

Então eu chegaria na orla, bem no meio entre o Leme e Copacabana, tiraria os chinelos como de costume e pisaria na areia quente (sempre muito quente, que por vezes parecia queimar a sola). Teria ainda uns 10 a 15 metros de areia pela frente. Sempre achei curioso a extensão nada coerente de areia ali do Leme de tão longa, mais quanto mais postos à frente você vai andando em direção ao Arpoador, menor fica. A natureza não tem lógica, conclui. Mas se eu tivesse certa mesma, eu chegaria logo, a beira da água fria de doer os ossos.

Uma vez, eu ouvi alguém dizer que era assim: quanto mais quente a areia estivesse, mais frio o mar estaria. Uma questão climática que eu não vou saber explicar aqui e que eu nem entendi direito para ser sincera.

Se eu tivesse com “sorte”, o mar esverdeado de Copacabana estaria revolto. Achava aquilo tão curioso! Quanto mais verde e impressionante lindo, mais raivoso ele pareia estar também. Eu, que todos os dias gastava metade ou mais da minha hora do meu almoço sentada no banco da orla, ficava a observar aquela bipolaridade entre beleza e humor do mar.

A considerar que eu não tinha lá muitas habilidades de nado, uns 20 a 25 passos em linha reta dentro da água, rumo ao horizontal infinito dele e logo tudo aquilo que me atormentava, acabaria enfim. Parecia ser um bom plano. Qualquer plano naquela altura parecia ser melhor pra me salvar. Acabar nos braços do mar, que sonho louco de se sonhar!

Por: Francielle Santos

(Foto: Arquivo Pessoal)

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