Prometo Falhar- Experiência Pedro Chagas

Autor: Pedro Chagas Freitas

Ano: 2015

Páginas: 400

Gênero: Prosa

… há tanto frio em mim quando você não está. Já fechei as janelas e os olhos e não há maneira de adormecer, ouve-se a cidade cheia de pessoas e nenhuma é você.

Deus acontece pela diferença e pela maneira como quando você chega me sorri e me pede perdão por mais um atraso, o escritório e reuniões, quase dez segundos até que sem falar eu te peço para vir e te abraçar por dentro, há uma só vida e você é, tão inacabável em mim.

Pedro Chagas Freitas

Há dias que eu estou tentando organizar os pensamentos para falar sobre um dos meus livros de cabeceira favorito e que carrego comigo há alguns anos. E depois de revirar as possibilidades de frases, cheguei a conclusão, de que não parece justo tentar resumir simplesmente com meras palavras está e nem as outras obras do autor português Pedro Chagas Freitas. Seria o mesmo que tentar fazer com que você sinta o sabor que eu sinto nos lábios, quando o leio com a totalidade sensorial da minha própria língua (e isso é impossível!). Posso até de dar uma ideia do que é, mas jamais será o mesmo que a prova individual da leitura e imersão dos sentimentos que ele consegue fazer sentir página a página.

Prometo Falhar é uma experiência única a cada texto, mesmo quando volto à ler o mesmo, é como se eu não o tivesse lido ainda, pois sinto novas sensações e o nascimento de novas percepções sobre as pessoas, relacionamentos e a vida em si.

O livro é composto de diversas crônicas e diálogos (prosas como ele chama), onde ele ou seus personagens se propõe a ter com as pessoas que o cercam e compõem a sua vida. Como também a imersão das emoções, anseios, tristezas e prazeres que estes relacionamentos provocam. A inquietude do amor nas suas profundezas mais obscuras e pura. Pedro, prova que não dá para escapar das garras do amor. Logo, não dá para escapar de todas as consequências de quem se permitir viver o amor.

É a dor que aperta os nós. O resto aperta, no máximo, pequenos laços.

Há que ir ao fundo do que existe para ir para conseguir suportar o que ainda está por vir.

Há sempre mais um estrato de dor para experimentar…

Viver ao invés da dor é não suportar os reveses da vida.

Pedro Chagas – Trecho do livro (Página 206 – versão adaptada ao português falado no Brasil)

Prometo Falhar é um convite a nudez emocional. É o rasgar do peito por inteiro. Colocar a prova a coragem de olhar a si mesmo e se mostrar vulnerável ao amor na integra. “Apetecer”, como dizem os portugueses.

Você chora ao se deparar com diálogos em que o autor está se derramando nas relações familiares dada a ser tão simples e ainda assim, tão complexas. Sorrir bobo com o comportamento e reações dos protagonistas (ou protagonista) apaixonado, delirando, embriado de amor. Gargalha alto com a audácia, irreverência com as palavras e o jeito “rústico” de dizer sobre tudo. E você morre de amor, sangra as paixões que Pedro descreve com tanta precisão de detalhes e ainda assim, você encontra coisas por dizer nas entre linhas, o que torna tudo excitante e mágico.

É sobre descrever as emoções e o cotidiano da vida sem perder a raça e ao mesmo tempo com muita leveza e criatividade com as palavras (do autor, que também é mestre no Projeto de Escrita Criativa). Talvez, esse seja o gosto agridoce da leitura de Prometo Falhar. Com doses duplas de palavrões e termos que brincam com a impressão do tempo.

Sinto como se passasse a ser uma de suas personagens, por vezes enquanto leio; da para sentir o frio na espinha, o calor na pele, o ruborizar da face, as lágrimas salgadas a formar nos olhos, o pulsar forte das batidas do coração.

É assim que me imortalizo na pequenez da vida. Me apaixono pelo o que me fascina, me entrego ao que me apaixona, estou inteira naquilo a que me entrego. Não penso na possibilidade de para sempre, não anseio sequer, que o momento perfeito se estenda no tempo, porque por sorte aprendi que o momento perfeito, quando se estende, passa a ser um momento estendido e não um momento perfeito. O valor das coisas valiosas está na sua perenidade, na sua incapacidade para serem infinitas, e só assim se fazerem infinitas.

Pedro Chagas – Trecho do livro (Página 261 – versão adaptada ao português falado no Brasil)

A coleção de prosas é uma coleção de suspiros pela vida. Carrego por onde vou, porque sempre que me falta brilho nos olhos ou a consciência de beleza nos dias, basta uma folheada pelas páginas já surradas do meu livro, que a realidade cinza ganha um colorido novo. A literatura, a arte, a música tem esse dom de revelar o encanto das coisas. A escrita de Pedro com certeza tem esse dom de maneira surpreendente!

Tem gente que tem na cabeceira livros de poesias, poemas, livros de auto ajuda com frases para cada dia do ano; considero todos válidos. Mas até aqui, nada que já li, aquece o meu coração como os textos de Prometo Falhar, que por vezes, é como se as páginas fossem braços a minha frente e as palavras transmitissem o calor de um forte abraço.

Dito isso, suponho que não preciso dizer com todas as letras que recomendo a leitura ou as demais obras de Pedro, não é?

Considerações finais:

Não sou capaz de escolher um texto favorito, todos me apetecem, mas abaixo texto escolhido por ora, para dar mais uma provinha aos lábios de Prometo Falhar:

“A única doença é 

não haver paixão.

Há pessoas que encontram no mundo um mero 

local de passagem, pessoas que não sentem o que 

veem, que não tocam o que encontram; há pessoas

que não percebem que tudo o que existe foi criado 

para apaixonar, para absolutamente apaixonar. 

Se não houver paixão

para que serve haver a vida? 

Há pessoas

e depois existe você

Você e a loucura de querer devorar o que te

rodeia, você e essa pulsão incontrolável para todos

os segundos serem os finais, para os instantes

da vida terem desesperadamente de valer pela vida toda.

Se não houver o que você é 

para que serve haver o amor?

E depois existo eu. A apaixonada que você ensinou

a se apaixonar. Antes de você não havia o tesão, havia

talvez uma ligeira excitação quando algo de muito 

grande me acontecia. Antes de você eu não sabia a 

beleza do medo, a sensação sem igual de um coração nas

mãos. Antes de você eu não sabia que um coração ou está 

nas mãos ou anda rastejando pelos chãos. Antes de você não 

havia você: eis o suficiente para explicar tudo o que me explica. 

Se não houver a possibilidade de te abraçar

para que server existirem os braços?

O teu riso me apaixona, me apaixonam as borbulhas

na sua pele, a maneira como você rói as unhas, a sua

distração quando enfia descaradamente o dedo 

no nariz; me apaixona que você me acorde todos os dias

no meio da noite ou no meio do dia para me encher de

prazer ou simplesmente para me dizer que me ama,

me apaixona que você seja tão falível em tudo o que faz

e que isso, mais do que todo o resto, me mostre

que somos infalíveis no amor que nós somos. 

Me levanto para a vida para apaixonar e ser apaixonada:

eis o que todo mundo, pela manhã, deveria ser obrigado

a dizer e a sentir. Me levanto para a vida para apaixonar 

e ser apaixonada. E até esse levantar me apaixona. 

Se não houver a possibilidade de ser apaixonante

para que serve haver a pele?

Basta explicar o que nos une

para explicar o sentido da vida.

A única doença

é não haver paixão.”

[Página 139 -140 – versão adaptada ao português falado no Brasil]

Por: Francielle Santos

(Foto Destaque: Reprodução / Site Oficial – Pedro Chagas Freitas)

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