efeito narcótico pandêmico

Esses dias, minha mãe enfurecida me disse: “eu estou orando à Deus, pra Ele dá um jeito nessa sua rotina. Não tá certo, você passar a madrugada acordada e de dia não levantar por nada!” e saiu andando pela casa com passos firmes.

Nem retruquei. No fundo, concordo plenamente com ela e me sinto péssima com essa situação também. O isolamento só potencializou outros problemas que já estavam rondando por aqui. E eu que sempre acordei muito cedo, disposta e cheia de vida, de repente, percebi essa vida toda me escapando pelos ares, poros, olhos, mãos.

Penso, que o problema é a droga da expectativa grandona que eu tenho o dom de ter com tudo. E depois de alguns anos, entre o ir e vir, dar um jeito aqui outro jeito lá, eu estava com uma expectativa da porra para 2020. Acho que não fui a única. Mas acontece que esse ano, até quem não tinha expectativa nenhuma, se ferrou igual. Uma conta que não fecha!

Foi quando tomei a decisão mais radical, que as portas começaram a se fechar. Porém, ali, ainda no comecinho, eu me mantive ativa e otimista, pensei: “bem, nem tudo está perdido: ainda tenho a EAD (detesto, mas posso aprender a gostar), vou organizar melhor o meu tempo, vou aproveitar para ler aqueles livros, fazer aqueles cursos e exercícios e aproveitar também para fazer aquela (re) educação alimentar e parar de comer tantas porcarias na rua. E a minha igreja no Rio ainda vai fazer todas as reuniões online, vou matar a saudade. Nem tudo vai ser tão ruim!”, doce ilusão, mas que doce ilusão.

E nos primeiros 30 dias foi isso mesmo, a EAD me mantinha na rotina de acordar cedo, assistir as aulas e até que eu gostei e muito (meu humor de manhã para interagir com as pessoas não é dos melhores), também segui com alguns trabalhos, refiz as minhas listas de tarefas, organizei umas bagunças, doei roupas que não usava, separei os livros, assisti alguns filmes e até entrei na turma que continuou com os treinos em casa. O tédio de sexta e sábado, preenchido com as lives (que ideia genial, “fui” a shows que nunca tive tempo ou dinheiro para ir). Todo domingo, me arrumava como se fosse sair para ir para igreja, mas ia para a sala, ligava a TV no canal do Youtube e “participava” das reuniões.

Já se passaram mais de cem dias. Perdi as contas dos dias, o emprego, a EAD, porque óbvio que a conta no banco começou apitar em sinal vermelho e eu não tive muitas outras alternativas, (tranquei a faculdade por mensagem no Whatsapp e chorei dois dias seguidos), tive crises de pânico nas primeiras semanas quando fui no atacadão com a minha mãe (perceba que não estou falando do mercado do meu bairro) e encontrei aquelas pratilheiras gigantes vazias e depois desisti de por o pé na rua, aquela mascará, o olhar das pessoas, a sensação de estar andando em um campo minado me sufocava. Desde então, se preciso de um remédio, peço para entregar em casa. Graças a Deus que até para “vodka ou água de coco” (nessa altura, o famoso tanto faz, fez mesmo sentido) tem o aplicativo do Zé Delivery para trazer no portão.

Também perdi o controle do tempo das coisas. Todas aquelas listas de tarefas me sufocaram junto. Quando a luz do sol tentava invadir pela fresta da minha janela, eu desejava ter uma cortina blackout (que agora está na lista de prioridades de coisas para comprar quando algum dinheiro sobrar), era outro dia a chegar naquele inferno. Todas as noites o revirar incansável na cama. O sono não vinha mais, era tanto pensamento estranho na cabeça, que comecei a pensar que estava a beira da loucura. Parei de assistir os jornais e qualquer tipo de noticia. Parei de tentar procurar uma roupa entre o confortável e o apresentável para ficar dentro de casa (não fazia mais sentido). Acordar tão cedo, pra quê? Automaticamente, parei de sentir fome. Parei com tanta coisa, que nem sei mais por onde começar. Sem falar na crise existencial entre uma crise aguda de reniti ou a incerteza se era aquela “gripezinha”. Tomava o antialérgico com uma porrada de outras remédios com paracetamol, que se fosse a gripezinha, pelo o que vi nas reportagens, ainda podia me dar muito mal.

A #fiqueemcasa já está ficando obsoleta. Há algumas semanas quando autorizaram as igrejas no Rio de Janeiro de reabrirem as portas, com todos os cuidados devidos, eu fiquei apavorada. Eu não saio nem na garagem, olhe lá, para ir até a igreja ou qualquer coisa assim. Vi também no Twitter a repercussão dos pubs em Londres lotados pós liberação da quarentena (que saudade dos pubs de Londres!). A saudade de sair com as meninas me apertou sem medir o estrago, que saudade de uma terapia de bar com musica ao vivo, mas aí o medo acorrentando qualquer ideia dessa … Foi aí que percebi que a pandemia parece “está indo”, mas ficando dentro de mim. Já não sei mais, o que pode ser mais assombroso.

Por: Francielle Santos

(Foto: Reprodução / Pinterest)

4 comentários em “efeito narcótico pandêmico

    1. aaah …. Confesso que estava receosa de publicar .. mas fico aliviada com o seu comentário .. eu que agradeço por isso !

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