quarto trancado

Ninguém nem faz ideia do estrago, a porta do quarto trancada é só a pontinha do iceberg.

Viver com sintomas (às vezes leves, outras vezes não tão leves) de depressão em casa com a família, nem sempre torna o processo tão suportável. O isolamento inevitável, machuca quem menos esperamos, quem menos queremos machucar.

Quem sofre não consegue lidar e dizer nada sobre o que está sentido. Faz um silêncio tão ensurdecer que deixa quem está perto louco. Quem assiste o “espetáculo” não compreende os porquês, as causas, não vê a escuridão. Vira um: “é frescura daqui“; “é preguiça de lá“… bate na porta e diz “LEVANTA” a cada um hora, que mais aporrinha, do que ajuda.

Lembro, da primeira vez que o meu cérebro escutou claramente a palavra “antidepressivo”, ainda que a doutora neurologista fora bem sutil. Eu estava tão fechada, que ela primeiro chamou o medicamento de um regulador do sono, mas entre uma orientação e outra, deixou escapar que na verdade era um antidepressivo leve, só para me ajudar com o relógio biológico bagunçado.

Fiquei remoendo aquela consulta por dias. Meu pai comprou os remédios e eu não hesitei em tomá-los. Naquele momento, eu não estava me importando muito com os rótulos. Eu só queria desesperadamente parar de sentir dor; o resto, já não me importava muito.

Mas até aquele ponto, meus pais já tinha enlouquecido comigo. Como aceitar uma filha que sempre foi ativa, trabalhadora, estudiosa, organizada, cheio de tiques com limpeza, naquele estado: mofando no quarto?

A depressão adoece-nos silenciosa e friamente, e tortura lentamente as pessoas que estão por perto a nos assistir. E eu, por mais anestesiada que eu estivesse pela quantidade absurdas de remédios que passei a tomar, tinha consciência disso.

No fundo, quanto mais eles questionavam mais longe eu queria estar. Não por ingratidão ou birra, mas porque eu não queria que eles me visse naquele estado e sofressem ainda mais. Sentimos dor até por causar dor, por estarmos sentindo dor (percebe a complexidade e redundância?).

Por vezes, a porta trancada do quarto era somente isso: a tentativa de evitar que eles vissem o meu estado.

Por: Francielle Santos

Nota para quem sofre de depressão: Tenha paciência, os dias cinzas passarão. Eles sempre passam. Acredite! Procure ajuda profissional se puder.

Nota para os pais e amigos que convivem com alguém que sofre de depressão: Pesquisem sobre o assunto, os sintomas, as reações colaterais emocionais e comportamentais que a doença causa. Aceite que a depressão é uma doença e não uma frescura. Respeite o tempo do processo. Ele(a) vai melhorar. Acredite!

(Foto: Reprodução / Self Worth)

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