Rodrigo e Diana

O amor não era uma condicional. Rodrigo sabia muito bem disso. Já tinha se arrebentado quando mais moço, quando ainda era o cara que ficava no banco isolado no jardim do campos que estudara direito, completamente distraído e perdido nas curvas da moça ruiva da turma. Depois, de muitas tentativas de tentar persuadi-la e convencer ela e aos colegas que ele era “O” cara com quem ela deveria ficar, ter filhos e envelhecer.

Depois dos cinco longos anos enfiado nos livros e com todas as suas tentativas fracassadas, entendera que o amor não era algo negociável, não tinha como persuadir o juri, para que eles a convencesse; o amor simplesmente acontecia, às vezes em dois corações e na maioria das vezes, só em um. Ele era um réu inafiançável do amor. Estava preso ao sentimento puro e atração pecaminável que tinha por ela, mas não podia mudar o que ela sentia por ele: só uma leve gratidão, por todas às vezes que ele parou tudo para ajudar com um caso ou outro de estudo.

Quinta-feira, 16 de Julho às 06:03 da manhã, o celular de Rodrigo toca impaciente no criado mudo do lado da cama. “Quem poderia ser uma hora dessas?” Ele se perguntou, irritado. Olhou na tela do celular. Numero desconhecido. Rapidamente seu cérebro fez uma levantamento se tinha deixado algum boleto por pagar e pudesse ser cobrança, mas Rodrigo não era o homem que não pagava suas contas em dias, talvez pudesse ser algum telemarketing oferecendo algum daqueles serviços estúpidos que ele e ninguém precisava. Considerou mesmo não atender, mas a sua curiosidade aguçada não podia sustentar a duvida para que dormisse mais um pouco, logo atendeu, mesmo que injuriado.

Diana, era uma mulher vigorosa e encantadora. Pelo menos era como as pessoas que a conheciam de perto a descreviam. Sempre dizia o que lhe vinha a mente. Sorria largo e chorava desenvergonhado se sentia vontade. Mulher empoderada. Por vezes, assustava tanto quanto derretia os egos dos homens que cruzavam o seu caminho . Ela sabia bem disso e esperava por um dia, que algum deles tivesse a ousadia de vencer o susto e a domasse. Diana era uma leoa indomável, que queria ser domada e amava essa sua complexidade.

Naquela manhã, depois de passar a madrugada inteira revirando os livros, cadernos e sites em busca de algo que lhe ajudasse a construir um parecer adequado para livrar a sua cliente que seria julgada por homicido culposo, depois de ser pega com uma faca ensanguentada na mão e o marido agressor morto furado ao lado, ela se lembrou de Rodrigo. Ele sempre tivera uma habilidade de encontrar nas entre linhas dos casos, uma vertente que tornava o veneno o antidoto. Hesitou em ligar, mas as necessidades de inocentar a sua cliente falaram mais alto, então discou o numero escrito por ele mesmo em sua agenda da faculdade.

Rodrigo reconheceria aquela voz ainda que em mil anos. Até considerou estar sonhando, porém estava agitado demais, já sentando na cama e sentindo o frio do piso nos pés. Diana, se desculpou pelo o horário e foi breve no objetivo daquela ligação. Rodrigo quase não conseguiu assimilar tudo, pois só conseguia pensar em como tudo o que sentia por ela ainda estava pulsando no peito, mesmo depois de alguns anos pós formatura, quando fora a ultima vez que ele a vira.

O caso tinha detalhes que precisavam ser trabalhados com mais cuidado. O fato de os vizinhos nunca terem ouvido a acusada gritando não os classificavam como testemunhas chaves ao afirmar que ela apanhava do marido todos os dias e apanhava muito, quando o mesmo chegava em casa embrigado depois do happy hour das sextas-feiras com os amigos da empresa. Tinha também o fato, do cujo marido ser muito querido, não só pelos vizinhos, como também ser um profissional de referencia na empresa que trabalhava. Sem falar nos pais dele, que afirmavam com toda convicção que tinham em suas vidas de que o filho jamais seria capaz de erguer a voz contra uma mulher, olhe lá a mão, os braços, as panelas, a vassoura ou que quer que encontrava pela frente, contra a esposa que ele amava mais do que a própria vida. Mesmo com o exame de delito, que comprovavam que na noite que o homem fora encontrado morto na sala de sua casa pelos policias, que a própria mulher havia chamado, acusasse agressão contra ela. Os roxos pelo corpo, podiam testemunhas que ela, se não em todas as noites, ao menos naquela havia sim sido agredida. Mas tudo aquilo, ainda parecia pouco, pouco para convencer ao juri, os vizinhos, os amigos, os pais que o homem tivera o fim que procurara. A leia Maria da Penha estava ali, afirmando que ela era inocente, mas como fazer valer em um tribunal onde boa parte dos que estavam ali para deliberar eram homens certos de que mulheres foram feitas para silenciar, ainda que estivessem com a razão?

Rodrigo, daria um jeito (faria o melhor) para ajudar Diana a salvar a sua cliente de uma injustiça. Se vestiu e saiu ao encontro dela. Passaram a manhã toda trabalhando junto, entre livros, teses a serem levantadas e cafés fortes, na cafeteria próximo a casa dela. Perto da hora do almoço, Diana já sabia exatamente o que dizer para convencer à todos que o homem que parecia ser perfeito para a sociedade, na verdade era um monstro em casa. E assim foi, entre uma sessão e outra, uma testemunha insegura e outra, pausas para se recomporem, finalmente o veredito. A mulher cuja estava a beira de ser condenada, fora absolvida por matar seu marido em legítima defesa, em uma noite que ela soube que ou era ela ou era ele.

Diana, quando saiu da sala, ligou imediatamente para contar a vitoria à Rodrigo, que aguardava ansioso por noticias e de tão empolgado, acabou convidando a jovem advogada para jantar em sua casa para comemorarem e ela finalmente aceitou o seu convite. Quando Rodrigo desligou o telefone, se deu conta do ocorrido, de que teria um encontro com aquela Diana.

Por vezes, o amor só precisa do momento certo para acontecer. Quando o momento certo chega, mesmo que de forma inusitada, ele acontece. E assim foi com Diana e Rodrigo, que não pararam de se ver e conversar depois daquele jantar, onde contaram um ao outro sobre o desenvolvimento da carreira, da vida, dos amigos que deixaram de ser amigos e dos novos que compunham suas vidas. Dos planos que ainda estavam por vir e do quando se sentiam sozinhos em seus apartamentos quando chegavam em casa depois de um dia e tanto no escritório.

Perceberam que tinham mais em comum do que achavam quando era jovens estudantes de direito. Diana tinha tempestades nas veias a e pressa por calmaria. Rodrigo era calmaria e tinha anseios por tempestades. Uma completude exata entre os dois. Rodrigo, tinha mãos que pareciam poder segurar firme o mundo. Diana queria que Rodrigo provasse à ela que era capaz de segurar o mundo que ela era com as mãos. E ele assim o fez.

Amor acontece quando exato deixa de ser exato e surpreende para mais, sempre mais.

Rodrigo era o homem que Diana esperava a vida toda e não pudera enxergar como seu quando mais jovem. Diana era a mulher que roubara o coração de Rodrigo e só lhe devolvera na noite em que ela finalmente fora sua.

Por: Francielle Santos

(Foto: Reprodução / Lethe Distillery)

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