escapam-me os dias

Presa nesse quarto pela eternidade de um dia, noto fio a fio os meus cabelos castanhos embranquecer no reflexo do espelho. É possível que eu até desaprenda a falar em público, com pessoas de verdades por falta de prática. O meu sotaque misturado deixará de ser o que é pela ausência do uso.

Diminuirei a medida que a vida que me é servida é diminuída.

Os sonhos serão borrões na mente. Ainda estarão lá, mas eu já não lembrarei-me deles com toda a glória e magnitude que um dia foram visualizados e fotografados na memória.

Vou desaparecer de mim, um dia por vez, semana a semana, mês a mês.

Alguns poderão dizer que foi culpa da pandemia maldita que marcou a história da geração a qual pertenço. Eu não questionarei, é claro! Para que achar um culpado? Vou ignora-los todos, pois isso sei bem como fazer. Há coisas que são como andar de bicicleta, a gente não esquece nunca.

Lembro de quando ouvi falar da regra de 3: o homem sobrevive até 3 minutos sem respirar, até 3 dias sem água, até 3 semanas sem comida. Então, considerei por mim mesma a hipótese de que sobrevivemos até 3 meses evitando as emoções, isolados ou não e até 3 anos sentindo dor após as descobertas dos quartos escuros, do confronto inevitável com os monstros que saíram de suas tocas.

Tenho tempo. Ou o tempo seja completamente relativo e não tão exato como supomos. O ar me falta aos pulmões. Penso ter desenvolvido uma nova mania de tanto que checo as batidas fracas do meu coração no meu pulso esquerdo.

Continuo respirando, automático, é claro. Cada arfada que o meu peito dá, faz tudo em mim doer. Tenho esperanças que seja o que for, acabe logo. Três anos de resistência, parece tanto que penso em parar agora. O corpo ainda resisti, pelo que meu coração já desistiu faz tempo ou vice e versa, não tenho mais muitas certezas.

Os dias passam depressa. Como essa percepção não faz sentido algum, o doutor esses dias me perguntou o que eu tenho feito para sentir que os dias corram diante de mim. Eu disse que nada! Sequer me mantenho acordada durante eles. Mas a cada noite nova de insônia que marco no calendário, sinto a minha vida escapar, como areia foge pelos dedos das mãos.

Para que me servem os dias, se me escapam pelas mãos?

Por: Francielle Santos

(Foto: Reprodução / Grazielle Vieira)

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