eu fui longe demais

… quero você do jeito que quiser “, cantava entre uma taça de vinho e uma vasculhada nas últimas mensagens. Deveria ser maldição hereditária ou algo assim, como eu podia amar alguém com tanta força e ser obrigada a reprimi-lo com a mesma urgência do meu peito. Haveria de ter justiça no amor? Talvez, amar fosse ser a coisa mais injusta no mundo.

Quando a teimosia encurralava a minha razão contra a parede, eu me via obrigada a confessar que esperava. Esperava pela minha morte para ontem ou a morte do relacionamento dele para ainda hoje, mas não era verdade. Se fosse perante um juiz, confessaria o meu amor, mas eu jamais seria assassina do amor de outros, jamais! Morreria seca (como os marroquinos chamam uma mulher sem marido), mas não seria eu a razão de outra mulher perder o seu homem. Talvez, ninguém acreditasse em mim e nesse ponto de ilusão, eu queria estar no século XVII aonde ainda valeria a pena de morte por forca e não a cela das lembranças da solidão. Antes ser condenada por omissão do meu amor, do que por assassinato.

“…mesmo em segredo eu sou sua mulher” Odiava os segredos que preenchiam aquela histórias. Odiava os minutos escondidos. Os dias que tinham de ser obrigatoriamente apagados como se nunca houvessem existido. Poderia ser mais fácil se nós não nos amassemos, se não nos quiséssemos tanto, se não nos imaginássemos todos os dias juntos.

Haveria alguma droga na farmácia que pudesse neutralizar a necessidade entorpecente que me inquietava a mente, a alma, a pele? Poderia existir uma outra maneira de não ser segredo? Sempre há um jeito de ser e fazer o que se quer, quando pulsa junto com as ideias a coragem. Amar, é um ato de coragem. Faltava lhe a coragem de assumir que era eu a mulher que ele amava em segredo. Faltava em mim a coragem de cobra-lhe a coragem de assumir-me como dele, para deixar tudo para trás e seguir-me ou coragem para deixar-me em paz para sempre. Os meus lábios salivavam para mandar todas aquelas promessas e segredos a merda. Eu estava farta das promessas!

“…só você sabe como a gente faz, um minuto do seu tempo já me satisfaz”, o coração sussurrava sofrido a acompanhar as lagrimas quentes pelo o meu rosto ao chão e o som a percorrer a casa vazia. Deveria ser crime escrever uma letra tão reveladora assim, mas os compositores escrevem as palavras que somos covardes para confessar. A cada melodia, eu era desmascarada publicamente diante de tudo que abandonei, de quem me tornei.

Bastava um minuto dele para que eu voltasse ao brio da vida. Bastava um minuto dele para o vazio não ser tão vazio. Bastava um minuto para que eu cometesse pecados inimagináveis. Por vezes, odiava-me por me contentar com tão pouco. O amor adoece com tão pouco e adoece tanto, que o pouco passa a bastar. Sempre considerei as mais belas e justas razões para descrever amor, porém percebi que era pura ingenuidade minha. Quando você menos espera, amar pode também te condicionar a amar as injustiças, a amar as sobras, a amar o fins, amar a dor que fica quando quem se ama não está, pois é o que resta dela.

Consideremos pois que amar não tem nada de poético, que a melodia cega a caminhada em linha reta para um precipício, uma queda sem volta. Ama-lo não tinha volta. Eu já tinha ido longe demais. Dado a minha palavra em promessas injustas e portanto quebráveis, que eu era incapaz de quebrar.

Não queria a sobra da vida dele, mas não podia viver sem nada dele. Talvez estivesse doente de amor, ao ponto de me jogar assim. Talvez, isso sequer fosse amor e por vezes, eu torcia para não ser. Há cura ou tratamento para tudo no mundo, porém quando era caso de amor, nem mesmo depois da morte se vencia.

Por: Francielle Santos

(Foto: Reprodução / 365 DNI – O Filme)

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