dor mar versos

Quando a escuridão me invade e o pesar me atormenta, eu navego o mar revolto do que não permitir-me viver. A maré raivosa da soma de todos os instantes que não deixei-me desfrutar. Encontro em cada gota destas águas agitadas as palavras que não falei, as lágrimas que não chorei, os suspiros que não gritei.

Sinto a dor transpor o meu corpo de dentro para fora. Choro. Silêncio. Mutilo. Gozo.

Exerço a minha melhor habilidade, a capacidade inata de silenciar e assistir cada pequeno motivo não resolvido correr venenoso nas minhas artérias, a inflamar o que pude manter são. Assisto como quem que está no melhor assento do Teatro Municipal, o palco ruir

Fico pensando nos grandes homens que descreveram sobre a dor que se sente na carne e na alma de forma tão poética. Está que não faz de mim poeta, nem escritor, nem artista. Ela que me neutraliza, que absorve de mim o ar dos meus pulmões. Sinto-a apertar o meu coração a tal ponto que penso que ele vai explodir. Percebo os meus músculos enrijecer como sinal de resistência e às vezes, eles não resistem.

No ápice da agonia já não sou mais dono de mim. Já não tenho o controle sobre os pensamentos que encurralam a minha sanidade. Já não posso durar as sensações atravessando o meu corpo. O sofrimento é evitável, mas não para sempre. E quando o para sempre deixa de ser real, o sofrimento é desalmado.

Romantizam aquilo que chamamos de aflição. E eu hei de ser apenas outro humano que se entregou ao fim, para que renascesse das cinzas, sem sequer crer em fênix e todos esses bla-bla-blas de (re)começo, (re)significação…

Hão de crer que até no fim, encontramos algum tipo de paz ou de alívio. E é possível que dirão que como tantos outros, eu tentei subsistir a tentação de entregar-me ao fim, mesmo ele sendo tão extravagante.

Palavras me faltam. A consciência por mais clara que esteja, não soluciona as faltas. Sei, que tudo o que sei pouco me valem se não transformados em movimentos.

Movimentos me faltam nos dias. Estou, impecavelmente, exausto todos os dias.

Hei de ter certa capacidade de tornar tudo isso poético um dia. Já que me faltam movimentos na vida, há de me sobrar aos menos a estima pelos versos, que testemunham do que não sou capaz de escapar.

Por: Francielle Santos

(Foto: Reprodução / Cuded)

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