mais um domingo ao teu lado

O carro estava a minha espera na porta daquele prédio que eu já conhecia tão bem. Me despedi do porteiro como se o tivesse visto ontem e mais que isso, como se fosse vê-lo no dia seguinte, quando na lógica do amor a rotina dos tchaus, viram um eterno até já, até logo, até amanhã…

Entrei no carro e meu coração apertou tanto que pensei que fosse sufocar. Tinha te deixado a minutos e perdido dias de felicidade. O motorista logo confirmou meu nome, endereço destino, me ofereceu balas e questionou se sugeria algum rádio de meu gosto para a jornada até minha casa. A minha boca estava seca. A sensação de fim outra vez me correu o corpo. A maldita sensação de que eu estava outra vez tomando a decisão errada.

Naquela manhã quando decidir ir vê-la, nem por um segundo considerei me sentir tão inquieto e perdido de novo. Alias, que mal teria entre duas pessoas que só queriam a companhia de alguém para um dia de domingo. Considerei ter sido o dia da semana. Os nossos domingos sempre foram dias especiais. Não só por ser o único dia da semana que acordávamos juntos quando namorávamos, mas porque era repleto de momentos à dois, à família, à amigos… coisas que enfeitam os dias e que marcam a história inevitavelmente. De repente, ou não tão de repente assim, eu estava lá, mais um domingo ao teu lado.

Eu que pensei que nunca mais iria te encontrar de novo, te respirar de novo, te sentir de novo… Depois de tantos domingos sem você, tantos domingos a sobreviver a solidão ou a infame tentativa de ocupar o teu espaço. Mas nada e nem ninguém faz um domingo ser tão bom como tu.

Este domingo era diferente e tão comum, a gente se reconhecendo, entre tantas histórias escritas no espaço de tempo em que deixamos de ser nós. E eu, entre um riso distraído teu e a liberdade no teu jeito de ser a minha companhia perguntava-me como foi que deixamos de ser nós? Você ali na minha frente tão diferente e tão igual me fascinando, me encantando como fez na primeira que nos conhecemos.

Despejando as tuas palavras no meu colo. Teu modo de pensar despretensioso expondo a sua opinião sobre as minhas questões sem pedir licença e há de ser poesia, quando estamos com alguém que não precisa nos pedir licença para dizer o que pensa. Tu me fazendo rir a ponto de doer a barriga. Me roubando o fôlego entre um movimento e outro do teu corpo. Atiçando os meus instintos a cada palavra tão bem pronunciada pelos os teus lábios, a cada respiração profunda no inspirar e expirar do teu peito, a cada pensamento recuado e completamente relevado pela sua incapacidade de mentir com os olhos. E lá ia eu me apaixonando de novo, louco por tirar cada peça da tua roupa como eu fazia antes.

De tudo, preciso confessar-te que a vida acontece quando você se entrega todinha pra mim. Quando suas palavras doces viram comandos gananciosos e eu sou incapaz de negar-te os teus desejos. Quando é você inteira sob o meu corpo, aquelas curvas que um dia foram minhas, outra vez em minhas mãos. O teu cheiro. Os teus cabelos. O teu toque. Os teus sussurros. O jeito que se meche e me pucha e me prende em si. Deixo de ser dono de mim quando tu faz de mim seu amo e te amo. Simplesmente, te amo como ontem e como se nunca tivesse deixado de amar.

Duvido da vida completa sem a tua na minha. E é isso que me tortura quando me despeço. Uma brincadeira nunca antes foi tão séria como te reencontrar, te reviver, te sentir minha de novo como está. Era só para matar o tesão e tu vens e me matas a vida que me espera depois de ti.

Ainda no carro, procuro um caminho entre essas avenidas que me leve de volta à você ou a efemeridade do começo desse dia. Te deixar me arrebentou de novo. E eu acho que nos sabíamos que isso aconteceria. Outra vez me sinto um tolo que sai da sua vida sem muitas explicações, sem muitas opções de escolhas. Me sinto covarde por deixar quem me traz luz a vida escapar pelas minhas mãos.

A vida deixa de acontecer em mim quando você me escapas as mãos, ao peito, ao corpo, aos pensamentos de certeza. Não tenho mais certeza dos dias em que serei inteiro de novo sem o teu corpo, sem os teus pensamentos, sem o teu jeito de me sentir em ti

Por: Francielle Santos

(Foto: Reprodução / Ксения Штанская)

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