não te amo. sou teu.

— me tenha agora como se fosse a ultima vez, porque será.

Ela havia ensaiado aquelas palavras há semanas, há meses na verdade. Desde que descobrirá que ele tinha alguém melhor que ela em tudo, que escolhera ter filhos com ela, mesmo que ele ainda a procurasse como um desabrigado desesperado por abrigo. Mas ela poria um fim, antes que aquilo, fosse o que fosse, a matasse de vez. Há de se por limites até em quem se ama perdidamente. Ela estava perdida. E ficaria mais perdida ainda quando tudo aquilo acabasse outra vez, mas era o preço a ser pago. E ela pagaria.

— você sabe que não será a ultima vez.

Ele a disse como se fosse um rei que tem exatamente tudo o que quer e como quer. E ele era, se não o rei daquele país, daquela cidade, mas ele era rei daquele quarto quando quem o aguardava era ela na cama. Ele a amava. Ou amava tê-la tão dele. Até costumava a dizer que ninguém se entregava à ele como ela. E isso era verdade mesmo. Ela era dele. Ele sabia. Ela sabia. Qualquer um que os testemunhassem, afirmaria também. Ele só não sabia como ser dela do mesmo jeito, na mesma medida. E isso o torturava quando ficava só, mas raramente estava realmente só, e a vida que tinha era boa demais para ele jogar fora. Ele sentia-se um cretino e egoísta. E era mesmo. Fazia promessas que nunca poderia cumprir. Se sua mãe soubesse, o daria uns bons cascudos como quando aprontava quando ainda era um menino. Perto dela ele era um menino. Dado a ama-la, a possui-la, a beijá-la inteira, apegado demais, como se a vida durasse só um dia para deixa-la ir para nunca mais.

— eu não aguento mais ser a segunda opção.

Quase todos as sextas que recusava todos os encontros e happy hours com as amigas, abria um vinho e dava play naqueles filmes clichês no Netflix, ela se sentia impressionantemente pequena. Pequena diante da vida. Pequena diante dos dias que seguia sozinha em casa, enquanto ele estava lá no presente construído. Pequena a cada necessidade de ligar e dizer “vem pra cá já!” e proibida pelo o óbvio! Pequena por estar sentada no banco de reservas, enquanto era, ela sabia, uma verdadeira atacante pronta para brilhar em campo. Se os seus pais soubessem dessa miserável posição, estariam realmente decepcionados, tanto ou mais que ela mesma consigo.

— te quero mais que qualquer outra coisa na vida.

Ele sempre dizia entre um beijo e uma arfada intensa enquanto estava entre as pernas dela. Ele sempre sabia como silenciar não só as palavras da boca dela, como os pensamentos. Podia não ser perfeito e estava bem longe disso, mas era o homem que sabia como não desperdiçar cada segundo de vida que tinha com ela, cada respiração, cada vibração, cada pressão, cada chamado do corpo dela sedento por ele. E ele se sentia o homem maior do mundo, quando tudo que dizia que não para eles dentro dela se silenciava e só ela, completamente dele, movia-se lentamente por cima dele, arranhava-lhe o peito, jogava a cabeça para trás e derretia-se toda nele.

— eu te amo.

Deitada por cima do peito dele, sempre sussurrava baixinho, secando a lágrima ainda no rosto antes de alcançar a pele quente dele. Ele não respondia. Sabia que qualquer palavra em falso em sequência daquele instante, poderia custar cada minuto de vida com ela ainda a serem desfrutados. E custava. Custava cada dia de espera pelo o tempo certo para os dois serem um, para além daquelas quatro paredes de um quarto qualquer no meio da cidade. Custava a certeza se ela o esperaria para um dia que talvez nunca chegasse. E mesmo sem poder dar-lhe garantias, ele precisava que ela o garantisse que ela seria para sempre dele. Não diria que a amava. Diria com todas as outras palavras que ele não podia imaginar outra pessoa tendo o que era dele. “Não te amo. Sou teu. E você é minha.” As frases cortavam os pensamentos. Isso valeria mais. Tinha que valer.

— eu sou teu.

Ele disse, por cima do “eu te amo” riscado rapidamente dos seus pensamentos. Ela encarou os olhos cor de mel dele. Lágrimas lhe escaparam o controle. Beijou apaixonadamente os lábios dele. Ele a abraçou por cima dele com toda a força que tinha como se o mundo fosse acabar. E o mundo acabou.

Por: Francielle Santos

(Foto: Reprodução / Dirty Boots)

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