medo de viver nessa morte mais um dia

Não tem como ficar mais triste do que eu já estou. Não tem como quebrar o que já está quebrado. Resta-me caminhar entre os cacos, destroços, entulhos e sobreviver a sobrevivência.

Até respirar cansa.

Até pensar dói.

Olho para o que ficou e quase considero tudo como um completo erro, engano, acaso. Torço para que alguém me sacuda na cama e me desperte desse pesadelo “é só um pesadelo, só um pesadelo”, seja quem for vai me dizer, segurando minha mão com uma das mãos e passando os dedos da outra mão no meu rosto para tirar o cabelo bagunçado da frente dos meus olhos; entretanto, isso nunca realmente acontece.

Pior do que crescer e constatar que Papai Noel, Coelho da Páscoa, Fada do Dente, Cegonhas e todas as fantasias, são fantasias, é constatar que a vida é um tipo de pesadelo que ninguém consegue nos acordar, por vezes, nem nos mesmos! E vivemos dias pós uma noite mal dormida, que nunca são suficientes para se recuperar.

O meu terapeuta batia no martelo toda quinta-feira, em algum momento entre às 15h e às 16h dizendo: “você tem que encarar a realidade”, e eu balançava a cabeça com o sinal de que entendia o que quer fosse que ele estava tentando me dizer e de que talvez, um dia, eu seguisse o seu conselho.

Então um dia eu segui o conselho e hoje, tenho vontade de voltar lá e mandar ele ir tomar no cu! (com respeito é claro!) mas porra, queria que eu acordasse para constatar que a vida é um pesadelo e que eu sei, que não existe a menor chance de eu escapar?

Verdade que destroçou o meu coração em pequenos pedacinhos. Cacos que cortam os meus pés, enquanto me arrasto pelos cômodos. Doe como um pedaço de pau enfiado entre as minhas costelas. Que a verdade seja dita, a maioria dos dias são uma grande merda. E a maioria das pessoas fedem igual. Vivemos por puro automatismo de sobreviver a própria sobrevivência.

Só então entendi o que dizem por aí que, o que os olhos não veem o coração não sente. Eu vejo. Meu coração sente. Meu estômago sente. Meu fígado, meu rim, meu útero, minhas juntas, meus ossos… sentem. Superou até a dor de bater o dedinho do pé na quina do sofá e eu jurava que aquela dor era a pior de todas!

Beira a ser inacreditável. Coisas que são indizíveis. Doem tanto que entorpecem até a dor (perceba aqui redundância e filhaputagem em uma frase só). Me doeu tanto por tantos dias seguidos que já não sinto nada. Eis aqui a maior de todas as dores, a mutação de um ser que sentia tudo, para um ser incapaz de sentir qualquer coisa.

A vida é curta para viver sofrendo, mas sofro.

A vida é curta para amar, mas amo.

Não tenho medo de morrer, tenho medo de continuar vivendo nessa morte mais um dia.

Por: Francielle Santos

(Foto: Reprodução / We Heart It)

3 comentários em “medo de viver nessa morte mais um dia

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