[sobre]viver

Tenho medo dos dias que me esperam. Sinto (com doses excedentes dos anos que já se passaram) como a primeira vez que estava na rua com a minha bicicleta sem rodinhas com o meu pai dizendo que era fácil, facinho, facinho pedalar sem as rodinhas.

Sei que com as melhores das intenções o meu pai me enganou tentando me encorajar. Não foi fácil. Cai de primeira bem feio, ralei os dois joelhos, a canela, os cotovelos, um galo na testa cantando alto, sem falar na fúria que levantei e com raiva do meu pai que disse que não ia me soltar e me soltou na primeira oportunidade.

A raiva (orgulho, talvez) me impulsionou a tentar sozinha a segunda, a terceira, a quarta e todas as vezes seguintes (não lembro exatamente quantas foram, eu tinha seis anos) para aprender a pedalar sem as rodinhas e finalmente, nunca mais cair de bicicleta.

A lição importante que se tira aqui, percebo agora bons anos depois é que aquilo foi como um ensaio para as tentativas de pedalar pelas escolhas decisivas a se tomar e pequenas amostras do que as quedas que eu ia levar na vida poderiam resultar. O ponto complicado é que quando criança basta uma lambida no sorvete de chocolate para a fúria passar rapidinho; basta um curativo meia boca e um beijinho em cima do arranhão que já esquecemos o que fez chorar em um zás-trás. Basta algumas horinhas, minutinhos e a gente já vai lá cheio de coragem e ousadia tentar de novo.

Quanto mais cresço maiores são os tombos; mais profundas são as cicatrizes; mais horas, dias, semanas para se recuperar do susto, para começar a sarar; e beiram a anos para criar coragem e ousadia para tentar de novo. O tempo tão exato não dá conta de me levantar de novo tão pra já. Não faz esquecer logo.

Lembro que quando eu era criança eu era tão corajosa, tão convicta, sabia o que queria mesmo não sabendo direito o que estava fazendo, eu me assusto com o reflexo dessa que eu encontro na frente do espelho. Penso que o problema não é cair, é a dificuldade de levantar depois toda quebrada. E a cada quebra sempre ficar para trás um pedaço da ousadia, das certezas, da força. Perco partes insubstituíveis.

O que não faz sentido nenhum é crescer e ter mais medo do que quando era criança. Essa covardia de sair na rua me envergonha. Essa covardia diante da vida aprisiona. Penso que envelheci uns bons anos nesses últimos meses. A sensação de que o tempo está passando depressa, nada mais é do que as semanas inteiras que me escapam em um único dia. Como pode ser possível? Não faço ideia, mas é.

Caminho como se pisasse em uma piso de gelo fino prestes a romper abaixo dos meus pés. Meu coração falta sair pela boca a cada estranho que me cerca e eu não sei se apenas passará por mim ou vai me abordar e fazer sabe se lá qual das maldades que passam pela minha cabeça. Temo morrer em casa, tanto quanto temo levar um tiro no peito na esquina. Quando foi que passei a ter tanto medo? Já não lembro direito.

O pesar dos dias vazios criam paranoias. Estou mofando nesse quarto e não saber como acaba me apavora. Desejo que acabe logo, seja o que for, como for, que acabe logo. O sofrimento não é uma escolha de vida. O sofrimento acontece a vida. O perigo existe. O medo não é real. Ambos caminham juntos, o medo, o sofrimento, o perigo e a vida. E eu procuro sobreviver entre eles, contudo, nem sempre sobrevivo. Só sobreviver me enoja.

Por: Francielle Santos

(Foto: Reprodução / imgur)

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