vestígios teus

Não lamento os dias com você; os dias que aprendi tanto contigo. Lamento a tua falta nos dias depois que deixamos de ser nós.

Todas as manhãs seguintes, todos os almoços de domingos, todas os vinhos das quintas-feiras eu pude preservar de alguma forma. Não deixei de fazer as nossas comidas favoritas e nem de quebrar a dieta nas noites de sexta – continuo comprando todas as nossas besteiras no supermercado. Também não abri mão das manias que você chamava de precaução – continuo dormindo com a porta entreaberta do quarto como você recomendava, mas sinto que a mantenho assim com a esperança que você chegue e entre por ela.

Algumas manias são totalmente tuas, como andar o tempo inteiro de meias pela casa mesmo com um calor de 40º graus. Continuo assistindo os jogos na TV nas quarta-feiras, quer dizer, não assisto de verdade, só ligo a TV, deito no sofá e imagino o seu colo no lugar da almofada enquanto eu leio o meu livro de crônicas do Pedro. Algumas vezes consigo te imaginar puto de ódio com o juiz e a beira de me jogar do sofá para gritar com ele, outra vezes, sinto as suas mãos passeando pelo meu cabelo durante o intervalo.

Ainda fico notando os carros pelas avenidas quando saio, agora praticamente reconheço a marca e o nome de longe – eu que só sabia reconhecer um fusca e olhe lá antes de você! Me viro melhor com o meu próprio carro também, acho que finalmente aprendi a reconhecer possíveis problemas só de ouvir o ronco do motor como você.

Contínuo cruzando a cidade para comprar o melhor café orgânico moído na hora. Também aprendi a parar no meio de toda agitação, sentar na grama verde de algum parque e respirar quando tudo parece sair do controle – a sua tranquilidade ficou impregnada no meu organismo. Sobre os patins, bom, estou aprimorando e sempre que estou neles lembro da segurança dos seus braços me conduzindo, garantido que eu conseguiria e que ainda que não, eles não me abandonariam (penso que aquela manhã que me ensinou a andar de patins, está entre o top 10 dos nossos momentos mais felizes).

Vez ou outra dirijo até Campos do Jordão só para passar outra tarde do teu lado. Levo a minha câmera profissional e lembro das suas orientações de como segurar, como capturar a luz, como desfocar do que é secundário e focar no mais importante. Enquanto me posiciono para fotografar, sinto você por trás de mim, suas mãos sobre as minhas, os seus braços tatuados, o seu calor, a sua voz (sempre fui tão apaixonada pela sua voz).

Caminho pelas ruas e sempre que vejo aqueles casais de velhinhos ainda imagino a gente junto, fazendo bobagens juntos, envelhecendo juntos. Já não dói como antes. Só sinto a saudade me apertar como os teus abraços me apertavam. Sento em algum bar e peço uma cerveja, lembro da sua malícia, do teu riso fácil, da tua alegria contagiando os meus noivos quando trabalhávamos nos casamentos, essa alegria ainda contagia o meu coração – então só me resta rir com você mesmo agora, tanto tempo depois.

Ficou tanta coisa boa de você por aqui. Quando me olho no espelho ainda vestindo a única camiseta sua que sobrou, percebo os teus vestígios na minha pele como tatuagem. Sou feliz pelas mudanças que causou. Fui feliz em cada novidade que trouxe para a minha realidade. Elas são minhas agora. Preenchem os meus dias. Acredito que foi amor, amor de verdade, pois continuo colhendo as flores muito tempo depois, por todas as sementes que foram plantadas enquanto você estava aqui. Que lindo jardim você me deixou, amor! Que lindo está este jardim!

Por: Francielle Santos

(Foto: Reprodução / 100 Layer Cake)

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