deixe me ir

A estrada a minha frente. Que dia lindo! Céu azul, sol, montanhas cobertas por gramas e árvores com verde novo regado pela neblina. Minhas mãos firmes no volante tentam não vacilar nem por um instante a pressa no caminho.

Desde que tudo aconteceu e desmoronou dentro do meu coração eu sonhei com os olhos bem abertos com esse dia.

Colocaria poucas coisas no porta-malas, meus livros todos em caixas de papelão que peguei no mercado. As roupas essenciais na mala que trouxe de Palermo que cabem uma vida inteira (literalmente) e a minha caixinha de madeira com tesouros – lembranças de todos os momentos em que fui muito feliz. O restante, poderia ficar, bem seguro na casa dos meus pais.

Eu não olharia para trás. Dessa vez, não teria despedidas tempestuosas com lágrimas desesperadas e duvidosas. Diria “tchau” como quem diz um leve “estou indo ali”, como deveria ser sempre, porque os filhos saem dos ninhos, essa é a única certeza que todos temos na vida, mesmo que nem sempre se tenha a certeza do para onde, como, por quanto tempo, para que…

Eu não sentiria o meu coração esmagado no peito. Ele só estaria acelerado no peito como no primeiro voo (você já sentiu o coração de um pássaro depois que ele voa?) o meu ficaria assim, pulsando forte, pulsando vida, a minha vida!

Há de se dizer que mesmo quando fazemos o que temos que fazer magoamos as pessoas ao redor. Nunca estamos prontos para deixar ir e nem para ir. Somos todos forjados em meio ao apego. A necessidade de estar entre os braços, o cômodo, o quarteirão que nos mantém em segurança. Tememos a travessia, como a desejamos com todas as forças para viver, melhor, para sentirmos que estamos realmente vivos e fazendo algo de extraordinário com a vida que temos.

A urgência pelo o que excita se torna a alforria. O vislumbre pela independência a força que mantém o coração batendo. O que era porto seguro, se torna uma jaula. Sonhamos com os dias além da janela, como um pássaro preso na gaiola que inveja outros pássaros que voam livres no céu a vista.

Nem sempre escapamos de pronto. Relutamos. Negamos. Enumeramos um zilhão de razões para ficar. Pai. Mãe. Irmão. Amigos. Vizinhos. O senhor da padaria que vendeu pãezinhos francês e deu balinhas de morango de troco por duas décadas e meia. Às árvores que cresceram com você. Os caminhos conhecidos de olhos fechados. Todas as mudanças que o tempo causou em ti e em tudo ao redor, mas que nada disso os tornou estranhos – mudaram junto. A familiaridade e o conforto do conhecido.

Nem sempre a porta é aberta e a liberdade dada por consentimento de ambas as partes envolvidas. Planejamos. Aceitamos. Lutamos por ela. A conquista da liberdade há de ser sempre uma guerra à enfrentar. Enfrentamos. Choramos. Ferimos. Somos feridos. Corremos sem olhar para trás madrugada a dentro com grandes intenções de futuro. Encaramos o caminho escuro até que o sol aponta no horizonte e o desconhecido se torne um caminho possível. Encaramos as consequências e estranhezas do novo. Lidamos com os julgamentos e a falta do que ficou. Sobrevivemos, até que passamos a viver de fato.

Ir. Ir andando. Ir correndo. Ir voando. Ir navegando. Ir. Ir. Ir.

Por: Francielle Santos

(Foto: Reprodução / We Heart it)

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