do que é feito um escritor

Do que é feito um escritor?

De amor, é claro! Agora sei, agora sinto. Só quem amou muito, escreveu muito para sobreviver o amor e/ou por amor. Se escreve para sobreviver ou se manter vivo e vice versa. O amor, este mesmo, a coisa mais linda do mundo e a coisa mais terrível do mundo. Te amei a ponto de escrever. Te escrevi para suportar a este amor. Enquanto tinha palavras para te descrever eu ganhava tempo de vida e corria para viver de depressa, tinha medo de morrer antes da hora, morrer sem morrer de verdade, entende? Que coisa mais horrorosa na vida é morrer sem morrer de verdade.

Enquanto vivia, te escrevia para não perder a única coisa que me sobrará: o amor, é claro! Quando se perde tudo, inclusive aquele a quem se ama, a última coisa que sobra é o amor ou a esperança. Ambos são uma coisa só, pois veja bem, só quem ama tem esperança e só quem tem esperança é capaz de amar. Estupida redundância que estapeia o óbvio, porque é óbvio, é claro!

Preciso inclusive te pedir perdão, amor. Pois nessa necessidade de te escrever para viver, te contei todinho para mundo. Está aí uma coisa que não se deve fazer por nada, contar ao mundo sobre quem se ama desse jeito, escancarado, desavergonhado, dedo duro… Porém, foi o que me sobrou para fazer, espero que um dia me perdoe por isso ou me ame de novo por isso; ambas as necessidades me justificam e quase me absolvem.

Expus teus defeitos todos e tuas qualidades todas também. Confessei nossos segredos, nossas intimidades como se estivesse ajoelhada na janelinha do confessionário da igreja procurando redenção pelos meus pecados e tentando sentir culpa, para pedir perdão de verdade, por não me sentir sequer culpada de você.

Também denunciei os teus crimes todos, inclusive os que eu fui cúmplice. Instinto de sobrevivência eu acho. Que confissão mais cretina essa que condena até quem é vítima, vai entender! Tudo dependia muito da hora e da lembrança que me agarrava pelo colarinho. Às vezes, me batia no meio do jantar com todo mundo a redor da mesa e eu tinha que me retirar para chorar tua saudade no colo frio do travesseiro. Outras vezes, eu partia para a briga, agarrava-lhe pelos colarinhos também e rolava no chão de me acabar (logo eu, que nunca fui dada a brigas – meu Deus, quanta humilhação!) aí resultava nisso: tu confessado ao mundo por palavras já bem desgastadas por todo mundo.

Te escrevi até o último minuto que pude escrever para continuar respirando. Até que parei de respirar ou de acreditar no amor ou de te amar, o que no meu caso ambos dão na mesma. Precisa ir checar no laudo da minha morte as causas, caso tenha interesse, elas não ficarão muito bem esclarecidas, há de se dizer algo mais ou menos assim: “Moça encontrada morta sentada na escrivaninha do quarto. Sem sinais de agressão. Não era fumante. O coração estava normal e todos os órgãos também. Nem uma evidência de doenças hereditárias. Foi encontrado uma taça de vinho tinto seco pela metade. Sem sinais de entorpecentes ou envenenamento. No papel a sua frente, a mão encontrada a repousar com caneta azul, a única linha escrita a dizer: “palavras me faltam para te escrever…” evidenciam a hipótese da morte por falta de ar (palavras).

Do que é feito um escritor?

De palavras, é claro!

Por: Francielle Santos

(Foto: Reprodução / Everygrey Photography)

2 comentários em “do que é feito um escritor

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