conclusão

Conclui que eu tinha que mudar. Estava sentada na janela do trem da linha Esmeralda indo da zona sul à zona sul e mesmo eu bem paulista, ainda fico exausta como o tudo é longe dentro da zona sul. Tive um daqueles momentos que beira a genialidade ou a iluminação, algo assim, enquanto pessoas saiam e desciam indiferentes umas as outras em suas respectivas estações. E eu abraçada com a canção Coisa Mais Linda do querido Caetano Veloso no fone de ouvido e de mãos dadas com o meu livro de crônicas de Pedro Chagas, que está mais para o meu companheiro de vida de anos.

Analisei o que tinha acabado de concluir, de que eu tinha que mudar. Uma vida inteira acontecendo fora de mim. Dia de sol de queimar o asfalto e eu divagando nas lembranças da minha mãe comentando sobre uma época (só vinte e poucos anos atrás), que essa cidade era chamada da terra da garoa e eu ainda procuro a garoa e nada. Nem o vento eu acho – quase todo dia uma crise aguda de rinite ou falta de ar, a cidade que tem tudo, menos o ar! Vejo carros, muitos carros. Prédios cinzas agora bem espelhados, mas ainda bem cinzas. Um corre e corre pra lá e pra cá de gente que parece mais robôs ou são robôs vestidas de gente (já não dá para ter certeza), mas depois que dei lugar a minha alma carioca eu não consigo deixar de reparar na rigidez, frieza e cinza em todas elas (tenho vontade de chorar! e choro por dentro, pois me percebo acinzentando de novo). Aliás, eu não consigo mais acompanhar o ritmo dos passos na mão esquerda. Caso você não saiba, aqui na grande e ilustríssima capital (aí, que preguiça existencial) a regra da esquerda serve para pedestres também, se você não tem pressa vá pela direita e deixa a via da esquerda sempre livre. Acontece que aí todo mundo tem pressa. Então, até quem vai na direita anda apressado na estações quando saem dos trens, nas escadas rolantes então nem se fala – aí daquele que ousar parar na mão da esquerda, é possível ser lançado fora da escada por uma velhinha! Isso também se aplica as calçadas, quando se atravessa as grandes avenidas, nos corredores dos shopping e até no parque Ibirapuera, Parque do Povo, Vila Lobos, até em pracinhas as pessoas continuam apressadas. Não vou negar minha raiz, pois eu sempre amei a nossa “organização e logística”, entretanto, ando tão desconectada que agora eu sento e espero. Espero todos irem andando na minha frente e vou depois, no ritmo rápido muito lento ou se tenho que ir logo, vou bem pra direita, bem pra direita mesmo e caminho em uma velocidade ainda desconhecida.

Conclui, após análise da conclusão, que eu tinha que mudar. Entrei no Starbucks ali da Rua Olimpíadas na Vila Olímpia, pedi o de sempre e o de sempre: cappuccino tradicional e um pão de queijo integral a moça me serviu (cliente fiel de todas as terças e quintas que chama ou competência no atendimento paulista: tirem suas conclusões). Sentei na mesinha de sempre. Naquele horário de sempre que sempre estava vaga. E continuei observando os robôs, quer dizer, as pessoas atravessando a calçada às sete e pouco da manhã como se o mundo fosse acabar. Considerei, que diante dos últimos fatos o mundo está mesmo acabando, então há uma certa coerência na rotina por aqui. E foi ali, entre o instante de perceber a coerência e todos os poréns da vida, que eu me teletransportei para Copacabana. Mesmo horário. Eu sentada na areia da praia depois de um treino de 7k, água de coco que comprei do Sr.João. As ondas a dançar na minha frente vestidas de tons azulados. O ar a refrescar a minha pele quente e o Sol a me dizer bom dia. Pessoas a caminhar com os seus filhos – cães a rolar na areia, correr para água, sacudir areia e sal nos seus pais. Outros a treinar com personal perto da calçada. Muitos correndo sem pressa alguma e isso beira a poesia existencial – correr sem estar apressado, quando por aqui as pessoas caminham com se corressem e correm a passos curtos. Dona Luzia na cafeteria confirmando pela milésima vez o pedido de sempre e convencendo-me a provar o sabor de bolo de vó novo, mas não precisando confirmar o meu nome, é claro! Coisa que beira a um abraço, quando você é olhado nos olhos e é chamado pelo nome por estranhos que compõe a sua rotina. Vou indo na medida que a vida vai acontecendo pelo o meio, até porque para os cariocas nem dentro dos carros nas avenidas se respeita a regra da esquerda e direita, então todos caminhamos no meio, na velocidade que a vida acontece na hora que acontece. A passos largos, a passos curtos, entre um ande logo e um ande mais devagar e todos andando na velocidade que lhes dão prazer em viver.

Por: Francielle Santos

(Foto: Reprodução / Mr. Been Brow)

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