seu tempo acabou

— o seu tempo acabou!

É o que eu sempre tenho vontade dizer. A frase está sempre na ponta da minha língua, depois de tantos ensaios na frente do espelho ou debaixo do chuveiro, enquanto a água quente de pelar a pele leva ralo abaixo as lágrimas teimosas que insistem em compor momentos constrangedores como este. O ápice da vergonha é sentir-se envergonhado diante de si mesmo. Diante do seu orgulho ferido. Do seu posicionamento, agora manchado por todas as vezes que você afirmou com os dois pés no chão, peito bem aberto e nariz bem levantado que não faria de novo, não aceitaria de novo… não, o que quer que seja, de novo! E contudo, o dia que você torna a fazer de novo chega e dá um golpe de direita bem dado em tudo isso. Você vai a lona com a cara e todo o resto que carrega por dentro. Se arrasta envergonhado para o banheiro, se tranca no box que nem tem fechadura e fica lá, minutos, horas tentando recuperar a dignidade ou lavar a infâmia impregnada na pele.

Ali você se da conta que o seu tempo acabou antes mesmo de ser capaz de dizer que acabou. O tempo, tão relativo e tão preciso quando tem que ser. Não se trata das pessoas que amou. Não se trata das pessoas que não amou. Não se trata das pessoas que deixaram você pelo caminho. Não se trata das pessoas que você deixou pelo caminho. Não se trata das pessoas que te feriram, traíram ou qualquer coisa semelhante que te leva a sentir dor profunda em algum espaço vago entre os dois pulmões. Não se trata das pessoas que você feriu com essa mesma medida. Se trata unica e exclusivamente de você e o tempo que sobra ou não sobra mais.

— faça as pazes com a solidão!

Quando penso na criação, lembro que todos os seres Deus fez em pares. O homem não. Mas com o passar dos dias Deus percebeu que o homem se sentia solitário e por isso, fez-lhe um par também. Penso que todos nos sentimos sozinhos vez ou outra. Cercado por um tanto de gente ou não. A solidão é tão real como o vento. Não a vemos, mas a sentimos e há vezes que a sentimos com muito frio. A presença das pessoas são como um cobertor, um chalé, um moletom do time de futebol daquele primeiro namorado do colegial (para quem teve a sorte de namorar um dos jogadores do time da escola). Precisamos delas. Por mais que muitas delas sejam insuportáveis ou melhor dizendo, que elas não suportem todas as nossas faces.

Tenho medo da solidão. Tenho medo dos dias vazios. Tenho medo de congelar com uma simples brisa que vem do leste, mas que leva do meu corpo o calor das pessoas que nunca considerei ter longe e mesmo assim as quis muito longe. Aprendo na marra e não porque é poético, que pessoas saem porta a fora da minha vida com a mesma leveza ou intensidade que se convidam para entrar e comer pizza de mozzarella em uma noite de sábado. E só quem fica até o fim ou até mesmo depois do fim sou eu mesma e todas as marquinhas na pele, no coração, na alma. E ai me dou conta que eu não me basto. Posso ter tudo e fazer tudo por mim mesma, mas não é suficiente. Encaro a solidão sentada ao meu lado no sofá e tento ser gentil, deixo que escolha o filme na Netflix, o que vamos beber se vinho branco ou tinto ou qualquer coisa que encontre na geladeira, o que vamos pedir no iFood. Divido o cobertor, segredos, incertezas. Aprendo a jogar xadrez, deixo vencer no jogo de palitinhos em cima do tapete. A levo para a cama e deixo dormir no meu lado preferido. Deito ao lado e a assisto dormir, enquanto eu perco totalmente a capacidade de desativar as minhas angustias. Levanto, acendo um cigarro na varanda e observo a madrugada passar e curar o que for necessário antes que o novo dia chegue. Vejo o sol nascer. Tudo está igual, mas eu já não sou como antes. Percebo, que aprendemos por pura poesia a amar a solidão.

Por: Francielle Santos

(Foto: Reprodução / Scene 360)

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