falta ser inevitável

Falta olhar. Olhar profundamente. Olhar com cuidado, calmo. Caminhar vagarosamente com o olhos pela superfície. Possuir. Ir à fundo. Sondar. Apreciar. Tatear. Apertar. Provar com o olhar.

Falta admirar. Encantar-se e fazer-se encantar. Buscar surpreender-se com o bobo, o simples, o comum. Fascinar-se com os ouvidos, os lábios, os dedos, de corpo inteiro.

Falta tocar – l e n t a m e n t e! Falta dedilhar as superfícies todas. Sentir as camadas. Conhecer as cicatrizes, as sardas, as pintas, as marcas de nascença. Causar arrepiamentos, calafrios, estremecimentos. Conquistar, adentrar, apossar a pele com a ponta dos dedos, com o calor das mãos.

A começar pelas palavras. Tocar e tocar, palavra a palavra. Palavras inteiras. Com emoção. Sem ressentimentos. Bem aventurados são os que sabem alcançar, acariciar, atiçar, marcar com palavras.

Leo a tocava com os olhos. Passeava pelo o seu corpo com as palavras, buscava-a com o calor do seu hálito, a fazia amar, encantar, confessar-se, entregar-se inteira, enquanto a admirava.

Coisa de pele – tinham e como tinham. Quando ele chegava perto dela o corpo inteiro despertava, ruborizava, abrasava. A cor bronzeada da pele dela fascinava a sua alma. O jeito como os lábios pronunciavam cada palavra fazia com que ele só quisesse morar naquela boca, se perder dentro dela.

Poucos eram como Leo: fanático, apaixonado por pele, temperatura, todas as curvas. Em especial as curvas dela, quem roubava-lhe o sono em noites a sós. Dela, quem usurpava-lhe a razão e severidade. Dela, os contornos que o faziam delirar quando desenhavam-se no ar com aquele vestido justo e meio salto, quando caminhava a passos firme pelas calçadas esburacadas da Avenida Nossa Senhora de Copacabana.

Quando ela vinha em sua direção o seu corpo inteiro ambicionava o corpo dela. Ele não perdia um instante sequer dos movimentos, do balanço, das pausas. O jeito formoso que se sentava e cruzava as pernas na sua frente. As pernas que ele queria acariciar, sentir em volta do seu contorno refém e preso entre elas, possui-la sem dó e sem piedade.

Ele perdia o ar quando o cheiro dela lhe invadia. E quando sorria… ah, quando ela sorria toda tristeza se desfazia ao som daquele riso solto. Todas as incumbências perdiam o seus privilégios de prioridade, só para ele estar ali para fazê-la sorrir de novo e de novo, ouvi-la sorrir mais e mais.

O jeito que ela o olhava de baixo pra cima como se quisesse confessar algo, contar segredos para serem só deles, para serem eles. O jeito que enrolava pequenas mechas do cabelo liso. O jeito que tocava o seu braço distraída e como se conectava com o calor da pele quente dele. Os instantes que valiam cada espera, cada sonho erótico, cada plano de vida para ser vivido ao lado dela, por ela.

Leo tinha para si que não a amava. Não podia ser amor. Não precisava ser amor. Essa palavra cheia de mistérios, incertezas, que às vezes, era meramente passageira. O que ele sentia era mais. Era maior. Estava além de um eu te amo. O que ardia no peito era inevitabilidade. Era exato. Era palpável. Era ela. Toda ela.

Por: Francielle Santos

(Foto: Reprodução / Dirty Boots)

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