caso, não caso

Quer saber a verdade? Eu não te amei como eu disse que te amava. Eu apenas gostava de saber que existia alguém ali, entre o espaço da poesia e da ilusão do que eu queria sentir e do que eu podia sentir para que eu tivesse para onde direcionar as minhas intensidades, uma justificativa para os meus desejos, com quem dividir os planos.

Lembro que quando completei treze anos, eu já sabia exatamente tudo o que eu queria da vida, o que esperava para o meu futuro. Um domingo deixei escapar na mesa, na hora do almoço, que eu já tinha cada detalhe do meu casamento planejado. Eu sabia o estilo do vestido, quais cores, flores, doces e a música que tocaria na entrada na igreja e até a que eu dançaria no meio de toda gente no salão de festas (vocação de planejar casamentos que virou profissão, ao menos!). Meu pai não perdendo a oportunidade, comentou: “realmente você já escolheu tudo, só falta o principal, o noivo!” (Caro leitor, vou poupá-lo das gozações que seguiram após isso.)

Contudo, de fato o meu pai tinha razão. Eu tinha tudo definido, até os nomes dos filhos que viriam depois de três a cinco anos de casada. No entanto, faltava algo que eu não tinha como controlar. Ter o amor de alguém. Alguém que tornasse cada sonho clichê completo, que bagunçasse a minha organização toda. Que discutisse sobre a música, o destino da lua de mel, o nome das crianças, se assistimos romance ou filme de ação nas quintas-feiras depois do jantar.

Foi quando eu percebi que todos esses sonhos beiravam ao sucesso, tanto quanto ao fracasso. Mesmo assim eu não desisti deles, apostei nos caras que julguei bons, certos, aceitáveis para os meus pais. Não deu certo, óbvio! O amor, quente e certeiro não acontece porque o planejamos ou porque é certo para os nossos pais. Acontece exatamente na contramão de tudo isso. E houve um tempo que eu tive raiva do meu destino. Raiva por não acontecer como deveria ser, como me ensinaram que tinha que ser.

Não foi por mal! Até me envergonho de ter envolvido você nisso tudo. Eu só queria provar que conseguiria fazer da certo. Que teria a vida ideal e segura que todos esperavam de mim. Construir um lar. Marido. Filhos. Ao mesmo tempo que eu lutei inconscientemente contra tudo isso.

Precisei perder tudo para me dar conta que eu não quero nada do que é convencional. Que amores mornos (convenientes) não me satisfazem. Que eu até posso ser feliz com tudo isso, mas que eu quero mais! Que amar de verdade não é escrever um script detalhado. Ele não acontece da maneira que imaginamos, tão pouco acontece no tempo que achamos que tem que acontecer.

Foi numa quinta-feira de tarde, que eu fui fisgada como um peixe no anzol, me encontrei perdidamente apaixonada por um surfista na praia, bronzeado feito eu, todo tatuado, cabelo comprido, falando daquele jeito carioca abusado que irritava e me derretia profundamente, quase me oferecendo um baseado na areia (que meus pais não leiam isso, amém!) me propondo em casamento ali mesmo, ao som das ondas agitadas do mar e eu já nos imaginando fazendo amor nas praias desertas todas do mundo, declarando os votos escritos em menus do hotel, em alguma ilha na Indonésia, eu e ele e 400 papagaios, com um vestido de renda, flores do campo no cabelo, alianças de bronze e o oceano de testemunha.

Todavia, não se trata de quem você é ou de quem ele é que não tem nada a vê com o que me foi recomendado. Tudo isso é sobre com quem eu fui criada para ser e quem eu quero ser, mais, quem eu realmente sou além das diretrizes, do convencional, do preto no branco, do que os meus pais e todo mundo espera que eu seja, que eu faço, com quem eu viva.

Eu te amei para preencher a lacuna. Para fazer da certo aqueles modos todos. Para silenciar as cobranças na minha casa, dos amigos dos meus pais… e pra quê? Para me reduzir e te magoar? Para fazer de conta que tudo estava sob controle? Em pleno século XXI eu acordei e me encontrei acorrentada sutilmente pelas conformidades do século passado. Sinto muito por ter te envolvido nisso! Querido avô, de todas as suas netas, sinto muito eu não ser uma ovelhinha branca como todas as outras tantas netas já bem casadas. Pai e mãe, eu sinto muito por descumprir o trato social, religioso e vocacional.

Ao surfista carioca todo tatuado: eu (não) caso, e (mas) se quiser fazer amor em todas as praias desertas do mundo, é sim!

Por: Francielle Santos

(Foto: Arquivo Pessoal)

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