casa

sempre quando penso em casa, eu penso no maR(io).

por muitos dias eu tentei explicar a dualidade entre a personalidade das minhas raízes x a personalidade da minha essência. uma vez eu sonhei que tinha cauda – como uma sereia. também tinha asas – como a Malévola (e acredite, eu já tinha mais de 24 e não 4 anos).

pessoas sempre tentam me convencer os pontos fortes de São Paulo como se eu não fosse uma paulista raiz. por dentro eu dou risada. conheço a cidade e as nuances acinzentadas dela como a palma da minha mão. eu adorava esta cidade. adorava o jeito como as coisas funcionam – porque de fato funcionam. um lugar onde o mundo parece posar para fazer acontecer e boa parte dessas pessoas acontecem mesmo. perdem a vida, digo, a cor (se é que me entende), mas acontecem. São Paulo acontece!

eu queria acontecer também. forjada na pressa imprescindível para sobreviver a esta selva de pedras, quero dizer, de prédios, eu queria muito acontecer. penso que ainda quero. só não quero do mesmo modo. com a mesma ambição fria e calculada. só não consigo mais acompanhar o ritmo. eu não tenho vontade alguma de correr por aqui. caminho em passos lentos entre pessoas que correm como lobos.

não consigo respirar. não consigo nem chorar. tenho a sensação que quando aqui sou, preciso de autorização até para ser mais humana. às vezes, me escondo no meio de um dos parques. parques que se escondem entre a multidão de edifícios altos e espelhados. caminho descalça pela grama. tento voltar a ser grão. tento voltar a ser terra. tento sentir meu coração. tento sentir as lágrimas. algumas vezes elas se permitem a vir.

acredito que uma vez fora da caixa, é bem difícil se adaptar a ela outra vez. não é impossível. mas é duro, doloroso. eu tenho tentando. contudo os dias são cinzas demais para suportar. a pele já está ficando cinza também. frio. silêncio. meu coração batendo cada vez mais devagar. a tristeza corroendo o brilho dos meus olhos, o riso no meu rosto. estou petrificando. pior, estou virando um desse prédios velhos no meio da av Paulista, que nem demolem e nem reformam. parada no tempo que urge.

sinto saudades do calor (38º apontava o termômetro entre um semáforo e outro) – e o verão nunca foi nem de longe a minha estação favorita. esqueço que estou na grande capital e compro vestidos floridos, finos, havaianas de todas as cores e óbvio, que se preciso sair não tenho roupas adequadas. aliás, eu nem saio mais. não tenho saco para a o jeito arrogante e medito dos paulista – impregnado também na minha pele admito. sair para pedir um “sex on the beach” dentro de um bar cheio de luzes artificiais e não uma cerveja na Mureta da Urca, com a luz natural da lua, ao som das águas da Baía de Guanabara – eu me recuso.

agora me pego até escutando samba raiz, pagode na sala nos sábados a noite em que fico em casa sozinha. acompanhada de cervejas baratas que peço no zé delivery. escondo as lágrimas melancólicas de baixo do chuveiro, com frequência. com a cabeça enterrada no centro da água quente que cai sobre o meu corpo, tento ouvir o barulho do m(L)ar para me acalmar.

faço de conta que estou bem. falo que estou bem. mas não encaro o espelho. primeiro, perdi as minhas asas. agora, também a calda. só resta a parte do corpo acinzentado.

Por: Francielle Santos

(Foto: Reprodução / We Heart it)

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