a padaria, a long neck e a rosa

Sentei na bancada da padaria do bairro. Não pedi um café puro ou com leite ou um suco de laranja com acerola. Pedi uma Heineken long neck – fui direto ao ponto. Tem dias que não tenho paciência alguma para dar voltas, medir palavras, pensar muito ou ser politicamente correta. Por hora, até esqueci que não estava em um bar escuro como aqueles que vemos nos filmes, onde as pessoas pedem logo uma dose de whisky com duas pedras de gelo e ficam ali sentindo pena de si mesmas.

Confesso, que eu queria que fosse um bar, a padaria por si só não é um lugar para sentar, beber e sentir pena ou raiva de si mesmo. Além disso, tem gente demais ao redor comendo aquelas coisas que engordam e fazem feliz na mesma medida. Sem contar, que por ser a padaria do bairro em que eu cresci, a cada dez pessoas que entram, ao menos uma delas já estudou comigo ou é o pai ou a mãe de alguma delas (e ninguém quer ser visto por algum desses pais, é como se fossem os meus pais me pegando no flagra) ou é alguém com quem troquei umas meias palavras na fila do banco ou do supermercado e por alguma razão esquisita que eu nunca entendi, parece ficar tatuado algum tipo de obrigação de falar com aquela pessoas todas as vezes seguintes ou é alguém que sempre foi comigo para o trabalho no ônibus de todos os dias ou já foi um vizinho de oito casas depois do meu vizinho de muro… coisas de bairro – detesto essa coisas que não me permitem ser invisível, desconhecida, alguém que não quer dar um daqueles risinhos simpáticos que dizem mais um “some da minha frente” do que um “oi”.

Quando decidi sair da casa para não surtar, tomei a decisão tão de repente que não tracei um plano minimo de para onde ir. Também não me arrumei para ir até alguma região dessa cidade que tivesse bons bares. Falta de energia e de uma quantidade de outras coisas à serem levadas em consideração para fazer tanto. Desde que voltei, tem sido assim, não moro em uma região que me ofereça um lugar de meio termo, sabe? Que não seja nem uma padaria e nem um bar com gente bonita e disposta como os da Vila Olímpia, por exemplo. E apesar de um caralhada de coisas, eu ainda não cheguei ao ponto de ir no bar do Sr. Zé ou Tião ou Chico, da rua de cima onde fica um monte de senhores bebendo e falando de futebol – me recuso a tanto.

O lugar mais seguro, seria pedir umas cervejas por um desses aplicativos milagrosos que entregam tudo em casa, vestir um moletom confortável, pedir uma pizza ou uma comidinha japonesa e beber sentada no tapete da sala, assistindo algum desses filmes do Netflix que fazem rir de doer a barriga ou fazem chorar até que você entregue as lágrimas pelos seus motivos. Acontece que eu não tenho mais a minha sala ou o pátio que eu chamava de sala do último lugar que morei (na casa dos meus pais, as regras são dos meus pais). E as paredes do meu quarto não me aguentam mais e nem eu a elas. Só resta-me a padaria.

Um sentimento de remorso me invadiu de imediato Mas não saberia dizer se por estar na padaria ou ainda aqui (cidade) como um todo. Acho que um misto dos dois. Senti raiva dos olhares das pessoas me observando com a minha cerveja, o celular desligado e uma cara de poucos amigos. Pareciam surpresos com uma moça pedindo um cerveja como se fosse um café, como fazem alguns motoristas de ônibus ou policiais que fazem uma paradinha rápida em qualquer padaria da cidade. Talvez, o peso do julgamento fosse todo meu, mas aquilo me irritou profundamente. Em meio a minha auto depreciação, meus olhos se prederam em uma rosa. Uma única rosa, em um copo de água no meio da bancada de apoio à minha frente. Foi tão aleatório, mas eu fiquei completamente presa por ela.

A rosa sozinha, indiferente e completamente desconectada do todo ao redor. Ela que parecia me encarar também, com aquele olhar solidário de quem me entendia. Uma identificação expontânea e sincera. Não pertencíamos aquele lugar, mas era o que tínhamos, onde estávamos, fossem qual fosse as razões que nos levaram aquela bancada.

Eu era aquela rosa no copo, com uma long neck na mão.

Por: Francielle Santos

(Foto: Reprodução / Memórias do Tempo)

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