tu, que nunca mais veio

Tu, que visitas-me sem pedir licença alguma. Como chuva de verão, as lembranças de nós me encharcam madrugadas a fio. Basta um descontentamento, um desfavor, um descuido bobo e você chega. Você e tudo que eu senti por você.

Por vezes, tu és o mal que alimenta a minha insônia. Outras vezes, tu és o calor nas noites frias. Ultimamente, tem sido assim: insônia em noites frias. Ironia da vida!

Busco incansavelmente palavras para dizer que NÃO – que NÃO sinto saudade, que NÃO lembro, que NÃO quero mais. Obviamente, encontro um milhão de maneiras para reafirmar que estou mentindo descaradamente. Contudo, para que me serves as palavras, se não para queixar-me da sua ausência, da filha da puta da sua indiferença, da sua covardia.

Odeio essa sua capacidade indubitável de ser covarde comigo. Odeio essa sua habilidade de convencer-me as tuas ideologias. Odeio me sentir tão fraca diante de você. Odeio você! E te odiar me entristece profundamente.

Nunca considerei sentir saudade daquilo que faz doer. Isso não faz sentido. Mesmo assim, com toda a minha racionalidade escancarada, sinto saudades de você. Ou de alguma parte tua que um dia fora capaz de fazer-me a mulher mais feliz do mundo. É aqui, neste exato ponto que sinto um certo alivio.

Esses dias, sentei na areia em Ipanema, era segunda feira de manhã, o céu estava azul limpinho, o sol começava aquecer a pele, tirei o meu caderno da bolça e comecei a escrever os dias em que fui feliz. Penso que eu queria suscitar a sensação de profunda felicidade, estava triste demais para aguentar. Escrevi duas linhas e fui tomada por um desespero, uma quase crise de idade, alguns poderiam tentar explicar. Você estava lá, na linha numero dois.

Chorei um oceano. Mergulhei entre ondas frias como se tentasse chegar ao horizonte e me perder por lá. Gritei seu nome debaixo da água, queria me afogar antes que a saudade de ti me matasse. Você não veio. Nunca mais veio. Não me afoguei. E até agora, não sei o que foi pior.

Por: Francielle Santos

(Foto: Reprodução / Looks Like Film)

7 comentários em “tu, que nunca mais veio

  1. Muito bom. Sugestão de uma professora de redação aposentada: Você tem autoria em seus textos, portanto mantenha as maiúsculas após os pontos – como nesse texto. O brilhantismo de suas frases poderia desconsiderar esse modismo duvidoso de anular maiúsculas. O texto fica mais organizado em parágrafos (para quem o lê, pelo menos). Mas, a não ser que seja intencional a sua escolha, aí, desconsidere essa sugestão. Abraço.

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    1. Professora Odonir, eu amei o seu feedback, sobre tudo a chamada de atenção sobre esse “modismo” como mencionou. O meu escritor favorito escreve muito dessa forma, e eu acabo reproduzindo por aqui também. Mas concordo que as maiúsculas organizam melhor o texto, e vou sim me atentar mais sobre isso. // Muito obrigada pelo o que disse sobre as minhas frases! Vindo de uma professora de redação tem um impacto muito maior em mim e para o meu trabalho ♡

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