como um peixe fora d’água

Já é 13 de Janeiro de 2021. Você reparou? O tempo está correndo ou eu estou enlouquecendo. Tudo pode ser, não pode?

Aquela exaustão de 2020 ainda está por aqui, lembrando-me que apesar da minha certidão apontar o auge da minha juventude, estou mesmo vivendo o auge da minha falta de … (um pouco de tudo).

Ainda ontem. Ou ainda um tempo atrás, as coisas pareciam ser mais fáceis ou eu tinha um pouco mais de coragem.

Sinto saudades de ter coragem correndo nas minhas veias!

Viver de verdade deve ser a capacidade de ter coragem para viver.

Ainda hoje, eu senti uma falta absurda de tudo o que NÃO construímos. Eu & Eu. Eu & Você.

Estava sentada no ônibus. Do lado de fora uma chuva de verão. O silêncio de dentro deu lugar as histórias, as lembranças, as saudades. E a dúvida: se eu pudesse voltar no tempo, faria eu tudo diferente só para evitar esses resultados? / Alguém no mundo faria?

Talvez, a certeza de que se viveu seja justamente as marcas das cicatrizes. Antes uma vida marcada por elas, do que nada. Nem cicatrizes. Nem histórias. Nem saudades.

Você acreditaria, se eu te contasse que, eu ainda acaricio o meu dedo anelar da mão direita como se você ainda estivesse aqui?

Passei uma vida inteira te esperando. Depois, uma vida breve te vivendo. Agora, sobrevivo a vida sem nós.

Você acreditaria, se eu te contasse que, ainda arquivo imagens para o que seria o nosso casamento?

Há um vazio imenso dos sonhos que já não brilham mais. É como está sob um céu da madrugada sem estrelas, sem lua. Lembro, das vezes que trabalhando de madrugada no meio do oceano em noites sem lua, do frio e da excitante sensação de estar no meio do infinito, de olhar ao redor e tudo ser escuridão, e não conseguir distinguir o que era mar e céu no horizonte.

A linha do horizonte era a infinitude das minhas possibilidades. Sobreviver, é estar em um barco no meio do oceano em noites sem lua.

Mais cedo, digitei o teu número na tela do celular. Ato falho. Coisa automática. Qualquer tola explicação serve. Quase te liguei. Queria ouvir a sua voz. Ou queria ouvir a voz dos meus sonhos. Não liguei.

Tenho pavor a ideia de te perder, de novo. Tenho pavor a ideia de me perder consequentemente. Tenho pavor a ideia de ferir essas lembranças quentinhas no peito, por puro capricho imediatista que não vai mudar nada.

Há dores que só dá para se permitir sentir uma vez.

A minha vida não acabou quando eu desembarquei daquele navio. Ou quando você desembarcou da minha vida. Acabou quando eu desembarquei de mim. Me senti como um peixe fora d’água. Mas não sou peixe, você sabe, não é?

A vida acaba quando a gente desembarca do nosso próprio barco no meio do oceano pensando que é peixe e sabe nadar.

O que sobra é resistir aos fins. Ter a capacidade de remover as escamas sob a pele. Encarar a nossa humanidade frágil e transparente. Não desistir da vida, mesmo quando a vida parece ter desistido da gente.

Por: Francielle Santos

(Foto: Lincoln Krauzy)

12 comentários em “como um peixe fora d’água

      1. Não sei se é empatia o nome disso… Eu senti o que disse nas minhas veias: já vivi isso. Sei do que fala. Sei como se sente. Sei como são essas loucuras que a gente pensa que ninguém mais entende… Mas o nome disso é amor. E seja lá para onde você for, tudo que aprendeu e foi e fez irá contigo. Isso é você.

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      2. Repare… É a vida te deixando melhor. Mais amável, mais abundante, mais mulher. Nada disso é por acaso. Você não é uma obra do acaso! E algum dia, eu te garanto, que algum homem vai se dar muito bem por estar com você. ❤

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