do outro lado

Estranho é pensar que o bairro das Laranjeiras
satisfeito sorri, quando chego ali

All Star – Nando Reis

Eu sempre estive pronta para partir. Eu sempre soube o que eu tinha que levar comigo – e cabia na mochila da escola. Menina ainda e o meu tio dizia para o meu pai: “Alan, a Fran tem a cabeça tão madura quanto a da Renata!” (a Rê, minha prima e dez anos mais velha que eu), e eu fingia que não ouvia o comentário que foi repetido incontáveis vezes durante a minha infância, enquanto eu comia o sanduíche maravilhoso de queijo que só a minha tia fazia.

Eu tinha uma espécie de força dentro de mim que me chamava para fora de casa. Não faz muito tempo que ouvi do psicanalista e escritor Guilherme Angra contando que a mãe dele sempre disse, que os filhos são feitos para o mundo e na mesma hora, eu dei um grito espantado e animado por dentro “é isso, é exatamente isso!!!

No fundo eu sempre tive essa certeza, mesmo sendo criada sob a formação em que é bom que os filhos fiquem o tempo que for para serem preservados no ninho e filhA, saí debaixo da asa dos pais e vai para debaixo da asa (proteção) do marido/casamento (palavras da minha mãe // se você for um pouco como eu, eu sei, dói essa fala!), hoje mais do que nunca, também sei, que eu sempre estive destoante desse conceito. Talvez, eu seja a ovelha negra da família.

Como eu ia dizendo, eu sempre estive pronta para voar e eu voei. Voei na altitude de cruzar o Oceano Pacífico de primeira, e a minha mãe chorou como se estivesse perdido a filha para a morte e eu quase desisti de tanto que doeu fazer dor nela. Voei à uma distância de 434km de casa, meu pai que sempre me apoiou em tudo cegamente, completamente contrariado, disse: “quer ir, vá! mas não conte comigo e não espere que eu vá até lá te visitar!” uma porrada que levei um tempão para digerir. O meu tio (o mesmo citado acima) que é como um pai pra mim, disse: “mas minha filha, tantas cidades nesse país, você tem que ir logo para a mais perigosa?“, entendia a preocupação, a maioria dos paulistas têm medo da realidade sombria carioca. Mas eu não podia não ir, não queria não ir e eu fui com medo mesmo. Sem certezas. Sem nenhuma garantia do lado de lá. Ambas as vezes com pouco apoio. (deixo aqui a minha gratidão aos meus amigos íntimos e para a minha prima Re por terem me apoiado apesar de tudo, sempre!)

Mikonos – Grécia
(Foto: arquivo pessoal)

Foi difícil. Passei muitas dificuldades. Fui constrangida abordo e aprendi a ter o dobro de atenção ao meu redor. Sofri uma tentativa de assalto por moleques menores que eu na orla de Botafogo enquanto eu corria e me defendi do jeito que pude. Fiquei doente e não tinha ninguém em casa para preparar um chá, ir na farmácia ou me lavar no hospital – então, eu me levei. Aguentei o que tinha que aguentar. Suportei o que tinha que suportar, sozinha. Aprendi a pedi ajuda. Reinventei a culinária dos meus pais; a lista de compras do supermercado da minha mãe. Copiei o meu pai na hora de organizar os boletos e separar as prioridades do mês. Carreguei a disposição social do meu irmão e conheci gente nova, mais, fiz novas amizades – me guiei pelos bares e pubs de Roma, Londres, Ipanema, Lapa… como ele me guiava pelos bares da Vila Madalena, Paulista, República…

Leme – Rio de Janeiro
( Foto: arquivo pessoal)

E fui ser eu. Eu de verdade. Fazendo o que dá na telha. Caminhando o tanto que tem vontade. Viajando dentro das livrarias da Voluntário da Pátria por tempo indeterminado. Ficando horas sentada na areia da praia vermelha encarando o movimento inconstante do mar, me encontrando nele para me reorganizar um dia por vez.

Gostava de subir as ruas das Laranjeiras; admirar a arquitetura de alguns imoveis que preservam outras décadas; sentir o cheiro de bolo de vó emergindo de algumas casas; parar em alguma cafeteria escondida entre árvores enormes, que crescem e resistem, apesar do cimento na superfície; folhear livros nas bibliotecas de calçada, com boas pausas para bons gelatos. Eu juro, que sentia mesmo que o bairro sorria quando eu chegava por lá. Ou era eu quem sorria?

Dizem por aí, que o nosso lar é onde o nosso coração está.

Como filha, sobrinha … é difícil para os meus pais e pessoas que compuseram a minha criação e que contribuíram diretamente na construção da estrutura dos meus valores, entender e aceitar a distância, seja ela qual for, a pouco menos que uma hora de voo ou à uma distância de oceano inteiro. Sei também que a minha necessidade de partida, deixa um monte de coisas nas entre-linhas que soam como insatisfação, falta de amor ou desapego. Mas se eu não for, quem eu serei? Se desejam com todo o coração que eu seja feliz e a minha felicidade está do outro lado, como não me deixar ir e desejar que eu seja feliz ao mesmo tempo?

Canto do Maluf – Guarujá
(Foto: Arquivo Pessoal)

Fui eu quem cortou o cordão umbilical primeiro, no entanto, ainda não sei como soltá-lo e seguir, sem continuar fazendo sangrar.

Por: Francielle Santos

(Foto da capa: Mendes)

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