Dicotomia

Você não tinha nada do que eu queria. E eu te queria como se nada mais eu precisasse.

Eu tinha tudo arquitetado. Não vinha de uma criação de arquitetos ou planejadores, aliás, longe disso. Meus pais tinham ficado juntos assim sem querer, na medida que a vida vai acontecendo e coisas inesperadas vão surgindo e transformando pessoas a solo em duplas improváveis, porém que vão dando certo ao ponto que não reconhecem uma outra opção do que a de fazer dá certo. E eu tinha pavor a essa ideia, não porque meus pais não deram certo, porque deram. Mas porque eu não conseguia lidar com a ideia do imprevisível. Sempre tive coragem para sonhar grande e sempre tive pavor do que não estava no meu controle. Uma dicotomia! Uma vez que na vida quase nada se controla.

Não era uma questão de diversidade entre você tocar trompete e eu violino, gostar de pagode ou sertanejo, preferir cerveja ou vinho, acaí ou sorvete, churrasco ou massa, torcer para o Corintias ou São Paulo, ir para Curitiba ou Maceió nas férias, adotar um cachorro ou um gato… era maior, muito maior que tudo isso. Era você nem de longe se encaixar nos meus planos de vida. De não querer voar numa direção paralela a minha e estar próximo onde eu esperava chegar. E eu me perguntava, como eu podia querer alguém que vibrava numa melodia tão distante do que eu tinha planejado pra mim?

Você era o acontecimento que me distanciava das planilhas.
E no fundo, eu acho que era isso o que me atraia à você. Rezam por aí, que a gente se atrai pelo oposto e você era o meu exato oposto em tudo. Eu ainda queria tudo o que estava planejado, no entanto, eu também queria sentir o frio da barriga que eu senti quando pulei de paraquedas a primeira vez e nada, absolutamente nada estava sob o meu controle. Queda livre. Adrenalina a mil. Os pensamentos vazios de tudo, inclusive de mim. Você foi o meu salto para tudo o que é incerto, improvável e contudo, real, efetivo, existente.

Checklists, mind map, ikigai, fórmulas, métodos… não direcionam sentimentos.
Você, que saiu quebrando tudo o que eu vinha construindo dentro do meu peito, por mim. Revirando, desfazendo, apagando planos e sonhos dos quais nem me lembro mais. Você, que foi a força incontrolável que me carregou para outra direção, para outro caminho, outro destino. Você, que me colocou do avesso e o avesso fez mais sentido do que o meu lado “certo”. Você, que chegou do nada e tocou a buzina escandalosa na porta (e eu detesto escândalos). Você, que foi entrando na minha casa para comer uma pizza e falar de vistos e travessias oceânicas (nem o roteiro romântico você seguiu e mesmo assim, foi romântico!). Você, que nem me levou pro quarto e as paredes do corredor suaram com incêndio que provocamos as duas e trinte e sete da tarde. Você, que aconteceu, simplesmente aconteceu!

Por: Francielle Santos

(Foto: Dirty Boots and Messy Hair)

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2 comentários em “Dicotomia

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