Em cada esquina

Quantos sins tem os meus nãos?
Lembra da gente no começo? Era engraçado como as coisas fluíam como se sempre estivessem existidos para estar naquele exato balanço, no embalo daqueles dias. Os nossos dias, que por mais inconsistentes que pudessem ser, ainda assim eram nossos – todos nossos. Estávamos ali, um pelo o outro no tempo que parecia ser eterno dentro de um dia, dentro de algumas horas perdidas na madrugada. Lembra das noites que não dormimos? É… tudo que era nós, fazia algum tipo de sentido.

Passei algumas semanas questionando as minhas próprias justificativas. Tentando entender porque até o que parece ser certo, ainda assim não o é. Não chorei mais. Não senti mais borboletas no estômago ou qualquer tipo de formigamento nas costelas. Tudo o que foi vivido depois de você, não passou de uma chuva. Dessas que nos pega de surpresa em um dia de sol e céu sem nuvem e que definitivamente nem a meteorologia prevê. Algumas vezes eu parei em algum lugar e esperei passar. Mas você me conhece, na maioria das vezes, eu apenas segui no meu caminho – sem olhar para trás ou para os lados, sem me preocupar com o cabelo alisado de chapinha ou com o rímel barato escorrendo pelo rosto ou com o fato de que aquela friagem toda me levaria para cama dois ou três dias depois, causas: gripe ou ressaca moral, ou seja, a mesma coisa!

Seja como for, eu não recuei. Recuar seria o mesmo que admitir que estava errada em voz alta. E quem é que em sã consciência confessa uma coisa dessas atualmente? E não, não seria eu a começar uma rebelião, você sabe, tenho pavor a escândalos, a multidão. Sim, eu também sei que existe um tipo de covardia tatuada na minha segunda pele. Nessa pele que nem você foi capaz de ver, de tocar, de curar. Nem mesmo você.

Em cada esquina que virei tentei não olhar para nada disso. Tão pouco me dei o luxo de prestar atenção nessa mesma pele necrosando por baixo da pele sedosa, macia e perfumada de lavanda. Quando parecia que eu não ia mais aguentar respirar, acendi um cigarro barato sem nem tentar me esconder em algum canto dessa cidade de pedra – você não acha que é uma grande hipocrisia da existência humana tentar respirar fumando? Pois é, agora também existe uma nova pele hipócrita que me veste. E é essa pele que eles veem e desejam, tocam e consomem, e depois, bem, depois eu volto para casa ainda a encharcar por aquela chuva grossa capaz de esconder qualquer tipo de lágrima, solidão, inexistência.

E hoje, bem, eu até confessaria que não houve um dia em que o buraco não se tornasse ainda maior dentro do meu peito. Não houve um dia em que eu não sentisse os meus órgãos sendo pressionados contra as paredes das minhas costas, a cada centímetro que esse mesmo buraco crescia no meu coração. Não houve um dia em que eu não tivesse tido vontade de chorar e quase chorei. Quase! É… você sabe, não chorei, não liguei, não voltei a escrever, quase parei até de falar. O silêncio, se tornou o lugar mais seguro do mundo. A ausência, um dos lugares mais apertados dentro desse silêncio todo. E sobrevivi, ou ainda tenho feito, perfeitamente, de conta.

Por: Francielle Santos

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