Permanência

Parei tudo o que tinha para fazer. Tem dias que é exatamente assim: acordo; levanto pela força das questões que são inadiáveis; abro uma frestinha da janela – a luz do dia tenta ganhar espaço no quarto escuro; visto o roupão; nunca penteio o cabelo; tomo uma xícara de café; não me esforço – pelo menos não o que julgo ser o suficiente; faço o que tem que ser feito; e depois, bem, eu volto para a cama que já não é mais arrumada diariamente como antes. Desisto. Deixo para lá todo o resto. Deixo para amanhã ou para um dia que alguma dessas coisas me recompense de alguma forma. E reconheço, sim, eu reconheço esse estado petrificado. E decepciono-me. Nessa altura, sequer faz sentido queixar as saudades, a ausência de casa, a ausência de uma versão mais forte, resiliente ou qualquer coisa assim. Tenho falhado. Sim, tenho falhado comigo. E consequentemente, com todo mundo ao meu redor. T O D O M U N D O. É engraçado, não é? Todo mundo e ainda me sinto tão sozinha. Tão isolada. Tão distante de uma possível realidade aquecida. Às vezes a vida é assim: tem todo mundo e não tem ninguém, e você que se vire com isso! Eu já deveria estar acostumada, e o problema também é justamente esse, acostumar-se – meu Deus, como eu odeio essa palavra! Eu proponho um abaixo assinado para removermos essa palavra escrota e ensossa do dicionário. Não! Só do dicionário não, de todos os dialetos, de todos os universos possíveis. Acostumar-se deve ser sinônimo de morrer. Deve ser essa a causa da pontada de dor que me atravessa entre as costelas. Eu ainda quero tanto viver. Eu preciso tanto sentir os pés afundar na areia movediça beira-mar. Eu ainda preciso correr longas distâncias à beira das cidades, estados, países, do mundo. Eu ainda preciso sentir o fôlego faltar aos pulmões e o coração bater tão forte e acelerado a quase sair pela boca. Está aí! Deve ser isso o significado mais genuíno e poderoso do que é a vida: o coração batendo tão forte a quase romper a carne que o protege.

Por: Francielle Santos

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